segunda-feira, 26 de maio de 2008

Chuchu

Ele estava aflito. Não sabia o que preparar para o jantar com ela. Ela tinha 34 anos, acabara de chegar ao Brasil depois de uma longa temporada no exterior. O convite veio quando se encontraram num bar do Jardins, onde acompanhado dos amigos ela se destacava e logo chamou a atenção dele. Trocaram olhares, ela tinha um olhar verde, claro e transparente. Ele piscou – não teve tempo de pensar o quanto aquele ato poderia ser inconseqüente, talvez pudesse reprimi-la ou até mesmo afastá-la, afinal não se tem o controle sobre a outra pessoa -, mas ela reagiu bem, não piscou, mas sorriu. Ele retribuiu.

Enquanto caminhava pela feira, tentava relembrar trechos da conversa em que ela repetia inúmeras vezes que sentia falta do Brasil, dos costumes, da comida e principalmente do tempero. Em meio a gritaria costumeira das feiras brasileiras, um chuchu lhe prendeu a atenção e ele ficou ali no corredor da feira, imóvel, observando-o. Era um chuchu verde, bem grande, o sol – que era forte - batia e o chuchu brilhava, resplandecia, ele chegou a pensar que aquilo talvez fosse um sinal extra-terreno ou algo assim, mas logo tirou isso da cabeça, lembrou que nunca deu bola pra esse tipo de coisa e que um dia até chegou a brigar com os camaradas do bar do Agostinho por causa disso, jurou de pés juntos e gritou aos quatro cantos do bar que milagres, fenômenos e entidades do além não existiam e que santos só serviam pra gozar com os amigos "mais um pouquinho pro santo" , sempre acompanhado de uma viradinha no copo, deixando um pouquinho do liquido cair no chão e só depois do ritual vinha o gole na bendita cachaça.

Senão era um aviso do além, pensara então o porque ele estaria ali fincado no chão e atrapalhando o vai-e-vem das pessoas olhando para um chuchu brilhante. 

Chuchu. Nunca se importou em guardar grandes lembranças de um chuchu, apesar de sua mãe o preparar com muita freqüência quando ele ainda era criança, onde ao comer ele sempre fazia cara feia, mas era obrigado a comer. Ela dizia que ele tinha que aprender a comer legumes e verduras, dizia que se as pessoas reduzissem para três dias da semana o consumo de carne, cinqüenta por cento das pessoas que morrem por problemas de coração seriam salvas. As carnes eram experimentadas em dias mais festivos – em forma de churrascos e mesmo nos churrascos havia muita salada -, e ela – sua mãe – sempre vigiava o prato dele, pra certificar-se que ele estaria comendo o arco-íris verde – como brincava ela. 

Já adulto, tinha esquecido o chuchu e muitos dos seus parentes (parentes do chuchu), as vezes lembrava dos antigos churrascos, que no auge da sua fase adulta tornou-se bem constantes, dizia que seguia a tradição e só fazia nos dias festivos, mentira, teve uma vez que o fez durante quase uma semana inteira.

Fez um mês que ele entrou num regime rígido, teve que parar com as frituras e com as carnes, isso incluía os churrascos. Seu medico dizia que ele não precisava parar de vez com a carne, só que ele devia prepara-la de uma forma mais saudável e reduzir a quantidade, chegou até a aconselhar que ele comesse um pouco de carne só uma ou duas vezes por semana. Decidiu parar, sabia que se voltasse a colocar um bifinho na boca ia desandar com o regime, e poderia voltar a ter um infarto, onde foi internado e ficou dez dias sob observação dos médicos – foi lá no hospital onde conheceu Dulce, uma enfermeira atenciosa, sua nova amiga e conselheira, de lá pra cá trocavam ligações e receitas, ela era boa cozinheira nos dias de folga (um dia lá no hospital ela trouxe comida feita em casa pra ele, trouxe escondido), ela também era vegetariana – tornou-se, depois de ver um filme que citava se as pessoas reduzissem para comer carne apenas em três dias da semana a quantidade de infartos se reduziria pela metade. Foi ela quem lhe passou a receita do risoto.

Na pista tocava uma música com ritmos latinos, ele já havia experimentado alguns passos, fez escola de dança de salão durante cinco meses para conquistar uma amiga do trabalho que dançava salsa, enquanto os olhares ainda continuavam ele decidiu arriscar, chegou para perto dela e levantando a mão lhe sugeriu um convite a pista. Ela olhou em volta como se estivesse procurando por alguém, sorriu e foi.

Com vestido verde e rodado ela se deixou levar, ele segurava na cintura dela com leveza e a guiava com segurança, não eram passos de dança que exibiam dons circenses, eram habilidosos e gentis, ele havia aprendido a dançar – ele mesmo se surpreendeu. Quando a musica acabou e os seus corpos se descolaram ele sentiu que a perderia se não fizesse algo e perguntou "Você vem sempre aqui?", no que ela iria esboçar alguma reação ele emendou um sorriso e disse "Você não esperava pergunta melhor, não?", aliviado, ela sorriu. Livrou-se das conseqüências desastrosas que aquela frase batida poderia lhe causar.

Ela lhe contou da sua viagem a Europa, dos paises que visitou e confessou num amor patriótico o quanto queria ficar no Brasil. Quase choraram. Contou também que quando foi perguntado do que ela mais gostava no Brasil, sem pestanejar ela respondera que era sem dúvida a comida. A comida da mãe dela.

Quando saiu do seu estado de hipnose resolveu ir até a banca onde estava a venda o chuchu sagrado – ele tinha apelidado o chuchu – e perguntou ao vendedor de onde aquele chuchu havia saído, o feirante respondeu que o chuchu tinha vindo de uma cidade do interior chamada Chuchu Grande, ele estranhou, nunca tinha ouvido falar de uma cidade com esse nome, até suspeitou que o feirante havia quisto fazer uma gozação, mas o feirante afirmava com tanta veemência que resolveu por hora acreditar na história do feirante – o feirante que também era pescador, mas disso ele não sabia.

A receita que a Dona Dulce tinha lhe passado estava no bolso, retirou-a e conferiu em voz alta "1 xícara de chá com chuchu em pedaços, 1 colher de sopa de azeite, 1 xícara de cebola picada, ½ xícara de chá de alho porro, 1 xícara de chá de arroz arbóreo, ¼ xícara de chá de vinho branco seco, 6 xícaras de chá de água, 1 pitada de pimenta do reino branca, 1 xícara de chá de champignon fresco, 1/3 xícara de chá de queijo gorgonzola ralado, 1 xícara de chá de queijo parmesão ralada, 1 colher de chá de salsa e sal a gosto.", só faltava mesmo o chuchu, mas agora já o tinha – comprou o chuchu sagrado.

A receita da Dona Dulce veio de uma das conversas telefônicas onde ele contara sobre a mulher que conheceu num bar do Jardins.

A mulher lhe confidenciou que sentia muita falta de uma receita em especial que a mãe fazia – a mãe já falecida não mais poderia fazê-la -, era o risoto de chuchu dos encontros de domingo.

Quando a mãe faleceu ela estava em Paris, veio correndo para o Brasil, ainda pairava na geladeira da mãe um topoer com o risoto – a mãe falecera num domingo, ela chegou na terça -, exausta foi se preparar para o enterro, estava com muita fome e sem cabeça para telefones de pizzarias ou comidas rápidas, resolveu abrir a geladeira da mãe, encontrou o risoto, comeu e chorou. Fora a última vez que experimentara o sabor dos deuses – como costumava chamar ao telefone quando falava com a mãe lá da Europa.

Todos os amigos dela já tinham ido embora e o bar prestes a fechar, perceberam que a hora da despedida tinha chegado. Trocaram telefones e antes de se despedirem ele prometeu "Farei com que você sinta novamente o sabor dos deuses".


Quatro dias depois ele envia para ela uma mensagem de celular dizendo ter descoberto a receita dos deuses. Ela não respondeu.

As conversas com Dona Dulce eram permeadas de muitas perguntas, ela o aconselhava insistir, se ela realmente tinha lhe chamado a atenção, então seria muito pertinente que ele insistisse durante o período que ele permanecesse no Brasil.

Os convites eram sempre recusados, mas eles conversavam por horas no telefone ou pelos comunicadores virtuais.

Aquele era o dia, o dia do jantar sagrado e ele tinha encontrado o chuchu. Sabia que tinha que se dedicar o máximo possível, se ele não conseguisse atingir o sabor dos deuses e não a levasse para o céu, tudo poderia estar perdido. Foram horas de conversas sobre milhões de assuntos aleatórios para convence-la estar ali.

Quando a noite chegou, o risoto estava pronto. Ela tocou a campainha e ele atendeu, se cumprimentaram e ele lhe mostrou o sofá – planejara tudo – que acomodava uma rosa de cor rosada, ela desfe-se em sorrisos. Tudo seguia conforme premeditado, seguro encheu as taças, ela recusou o vinho branco e brindaram com água.

Ela não acreditou que estava ali para comer o chuchu dos deuses, ou melhor, o chuchu sagrado que tinha o sabor dos deuses que lembrava a mãe dela. Ele ligou o rádio e colocou Tom Jobim pra tocar. Conversavam a distancia enquanto ele ajeitava num ritual próprio a mesa de jantar.

Ele trocou as taças de vinho por copos. Feito, serviu o risoto. Comeram, ela já comovida agradecera o jantar, ele não se conteve e também chorou. Jantaram. Ela pediu para ele separar um pouco do risoto que sobrou. Ele o fez.

A noite se foi. O Amor se fez. E ao amanhecer ele provaram mais uma vez o sabor dos deuses.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Confissão

Um dia a Clara - uma amiga de infância, que já é mãe de 2 filhos -, estava me confessando que achava que os filhos dela tinham cara de desejos não realizados, o primeiro, Felipe tinha cara de camarão - por causa de um espeto de camarão não comido quando estava passando as férias em Bertioga e viu um menino passar com um espetinho, era o último espetinho do vendedor que teve que dizer "desculpa moça, mas era o último!" e o Marquinhos - o menor - nasceu, coitado, com cara de jaboticaba. Uma desejosa jaboticaba num dia de domingo. O Marquinhos nasceu na segunda.

domingo, 11 de maio de 2008

Chá

Hoje é um dia frio. O líquido quente com essência de ervas me aquece, e me nina. Os sonhos são quentes com sabor de hortelã.

terça-feira, 29 de abril de 2008

SONHO REMETIDO

O campo verde media
[inconseqüente.
A razão de minha transcendência
Sob vales
Sob vários
Resumos em vias de acesso.

Como esquecer do pomar
(poucas vezes cultivado)
que funde-se à lembrança?
Rara do confisco
mar de todo o risco
De todas as ilhas de um sonho
[remetido

Perigoso o que o anseio traz
levemente como sopro em dois caminhos
difusos
diletantes
Que percorrem a razão de meus primeiros anos
[ sob os braços da arte.

Uma época áurea desbravada com pés descalços
Não soltava pipa tampouco jogava futebol
Chupava manga
Cigarra que canta
Ainda trovejante sob minha consciência
[em formação.

Época das primeiras descobertas de menino
Sentia um apelo senil em minhas pernas
[como se ali não houvesse
chegado
ás favas
minhas chagas
Infantis.


Corria ,me escondia de uma dona chamada responsabilidade.
Dever de casa era subir as árvores desnudo de carências
[adiadas
Poderia descobrir a tal causa da imortalidade
vários
passos
Como locomotiva em extrema unção
[ desdita.


O prêmio era satisfazer minha platéia
Com o vento puro da mais pura dormência
[de meus atos
tapioca
e passatempo
Naquele tempo o mundo se fechava e me satisfazia.

[Foi o que meu amigo André escreveu no Rio em 18 de Novembro de 2002.]

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Comentário

“Ainda sinto na boca o sabor do teu cigarro...”

A língua aidna degusta a fumaça... Talvez seja somente o que reste... A já incorporada fumaça.

Reflexão

Poesia. Nada faz por ti, às vezes pelos outros. Nem agrava. Nem amenisa. Espelha. O efeito do espelho. reFLEXO. Ou reFLUXO.

Recorte

[...

PENSAMENTO: As frases de pivada são um veículo para a expressão, criatividade e catarse daqueles que não dispõem de qualquer acesso aos meios de divulgação. A frase de privada é, na verdade, a mais legítima expressão subterrânea de um povo.

...]

[Notas de Manfredo Rangel, Repórter (A Respeito de Kramer) de Sérgio Sant'Anna (contos, 1973) ]

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Banheiro

Paredes amarelas e cadeiras pretas, a luz era baixa; Era uma lanchonete, a atendente magricela e baixinha atrás do balcão vestia um uniforme azul e estampava um sorriso mecânico. Pedi um copo de café com leite, ainda em pé fiquei a observar dois caras que revezavam suas vozes na leitura dramática de um parecido texto teatral; Faziam caras, bocas e vozes, um deles, ao contrário do outro usava bermuda, tinham cabelos longos de cor preta, eram brancos e fortes. Um com barba, o outro não. Mantinham-se sentados e bem postados.

Entre uma voz e outra, uma entonação e outra, uma pausa e outra, encontrava-me sentado num dos muitos lugares vagos encostado à parede. Cansava-me o dia mal dormido. Tirei da minha velha e companheira bolsa um livro (dividia espaço com papéis e embalagens de bombons, balas etc.).

Percebia meu sono (e o peso do dia) nos intervalos entre a leitura e a perda de consciência, não insistindo na leitura acompanhei um olhar fixa em minha direção. Construí uma indiferença, mas o olhar continuava fixo, me incomodava; a cada gole do meu café com leite eu desviava, mas não conseguia, insistia.

Uma jaqueta preta, óculos com forma arredondada, magro, cabelos grisalhos, um olhar que estava ali na mesa ao lado. Tenso, nervoso, olhos que piscavam a cada dois segundos, era inquieto. Levantou-se, ficou a admirar alguns quadros e gravuras que estavam dependuradas naquelas paredes amarelas, não tocou, somente olhou.

Curioso, percebi sua ausência, algo se foi, mas ficou a vontade de ir ao banheiro. Ao abrir a porta, ele voltou, encostado na parede, fixo, cruel, assassino. Reconstruí a indiferença, o mictório ao lado fazia questão de lembrar o cheiro forte de urina e aquele já velho e conhecido ruído, seu projetor era um gordo careca. Alguns assovios vinham de um dos biombos, alguém dava descarga e assoviava feliz, ele continuava lá, encostado à parede, calado, só observando, eu não conseguia me concentrar - abri o zíper, desajeitado mesmo e executei o velho processo, o careca também me olhava e do alto ele observava o meu processo. Em duas rápidas chacoalhadas me vi do lado de fora do banheiro, aliviado, sem medo e sem lavar as mãos.

domingo, 20 de abril de 2008

Revelação

Um rapaz chega a um restaurante, senta-se em uma das mesas que estão desocupadas, chama o garçom e lhe pede algo para beber, enquanto aguarda, entre um olhar e outro, repara que a mesa ao seu lado está ocupada por uma bela mulher. Observando disfarçadamente por alguns instantes, ele percebe que ela lhe sorri, como se estivesse convidando-o para sentar-se junto a ela, ele fica encabulado.

A bebida chega, e a mulher continua a sorrir, quando de súbito ele enche-se de coragem e vai até ela.

- Boa tarde! – Cumprimentado-a.
- Boa Tarde!
- Está calor hoje, não?
- É, está sim. Não quer se sentar?
- Quero. – Ele continua em pé.
- Então se sente.
- Claro. – Ele se senta.
- Você tem nome?
- Tenho.
- E não quer me dizer qual é?
- Qual é, o que?
- O seu nome.
- Claro, meu nome é... – Ele tira o documento de identidade de sua carteira.

Lendo a identidade, ele diz:

- Meu nome é Henrique de Tal. – Ele guarda o documento.
- Bonito nome, Henrique!
- Obrigado. Você gostaria de beber alguma coisa?
- Sim, gostaria.
- Então bebe o meu. – Ele coloca seu copo perto dela.

Encabulada, ela diz:

- Esqueci, estou de regime.
- Você é virgem não é?
- Virgem?
- As pessoas com o signo de virgem são pessoas como você.
- Como assim? Você nem sabe como eu sou, não me conhece.
- Só foi o que li no jornal.
- Você está enganado, meu signo é sagitário.
- Tinha certeza que você era de virgem. Mas o seu ascendente é em virgem, não?
- Não. É em capricórnio.
- Mas você tem tudo a ver com virgem.
- Porque?

Olhando para ela:

- Você gosta de se vestir bem?
- Gosto.
- Você é organizada?
- Sou.
- Alguém errou o dia do seu nascimento, os astros não se enganam, você é de virgem.
- Continuo sem entender!
- Você tem tudo o que uma virginiana tem como característica?
- E o que uma virginiana tem como característica?
- Tudo o que você disse.
- Mas eu não disse nada. Só respondi que sou organizada e que gosto de me vestir bem.
- Então é isso.
- Isso o que?
- Isso. Somente isso.
- Olha, creio que não estamos nos entendendo.
- Esse é um começo!
- Que começo?
- O começo de um relacionamento?
- Relacionamento?
- Duas pessoas quando se conhecem tem um relacionamento. Entendeu?
- Entendi.
- Mas tem um problema?
- Que problema?
- Para haver um relacionamento tenho que saber o seu nome.
- Meu nome é Clara.
- Claro.
- Não, é Clara.
- Agora sim temos um relacionamento.
- Que relacionamento?
- Clara eu também sou virgem!
- Entendi, o seu horóscopo diz para você se relacionar com pessoas do seu signo?
- Exatamente. Você é perfeita!
- Perfeita?
- Tudo está como escrito no jornal. Hoje quando li o horóscopo de manhã, ele dizia que eu iria encontrar alguém.
- Claro que você iria encontrar alguém, afinal está no horóscopo – Ironicamente.
- O mundo tem tantos segredos, mas os astros nos revelam todos. Imagine se não existissem os astros?
- Imagine.

Olhando para o relógio:

- Clara, tenho que ir. Depois te ligo.
- Como me ligará, se não te passei o meu telefone?

Saindo ele responde:

- Os astros me revelaram.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Recorte

[ ...
Não há nada de condenável na cultura de massa, ela cumpre o seu papel em um país democrático. O fato é que, evidentemente, quanto menor o lugar, menores as minorias. No Nordeste da terra do samba e do sol, o Jazz sempre será a deliciosa minoria.
... ]

recorte do jazzmanmp3.blogspot.com

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Releitura

Minhas coisas

Tem muitas coisas num mundo infinito que não compreendemos, sinto não compreender o tempo. Ele me passa, pouco percebo, seus efeitos invisíveis acontecem. Eu estagnado, não compreendo, nem reajo, gostaria de ser parte dos seus feitos, parte do todo, um todo que não compreendo.

Olho as horas, elas se movem, não percebo, elas vão embora, se transformam em dia, em noite, em coisas que não entendo, elas se vão. Eu fico. Fico olhando o tempo passar, e as vezes tenho a impressão que ele é quem me olha, quem me observa. Olhos nos olhos do tempo.

Tenho a impressão que flutuo, colado no solo meus pés permanecem, eu flutuo com o tempo que não sinto. É engraçado como consigo descrever, não me faz sentido.

Não o vês? Eu também não, mas é como se eu pudesse.
Olhos perdidos no mar.

terça-feira, 4 de março de 2008

Contraste-espaço.

Ela sempre me foi um mistério, sabia pouco sobre ela. Ela sempre disse que eu sabia o bastante. Talvez soubesse mesmo, ficava minutos inteiros olhando aqueles olhos, profundos, delicadamente pintados. Ela tinha razão, eu sabia mesmo o bastante.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Falando do mar...

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar.

[Maiakovski]

sábado, 26 de janeiro de 2008

The killers.

De Tati Bernardi (http://blonicas.zip.net/)

Sempre que uma situação começa a ficar boa ou simplesmente começa, solto minhas frasezinhas bombas. Não sei se com isso quero realmente foder a minha vida ou me proteger de me foder. Acho que segundos antes de explodir tudo, penso assim: se eu falar a frase mais errada do mundo, só os realmente fortes sobreviverão. O que eu não percebo é que no começo de alguma coisa, ninguém ainda é realmente forte para agüentar minhas frasezinhas bombas.
(...) Dentre as minhas frasezinhas bombas tenho três prediletas “to morrendo de saudades de você”, “a vida sem amor é uma merda” e “você me dá pouca atenção”. (...)
É o jeito que arrumei de me rebelar contra essa hipocrisia masculina. Eles podem dormir na casa da gente, enfiar o pauzinho no meio das pernas da gente, pedir uma torradinha com requeijão de manhã, mijar pra fora do nosso vaso, contar a vida deles e pedir mais carinho nas costas. Mas não suportam ouvir no dia seguinte um simples “gosto de você”. Covardes de merda. Odeio essa hipocrisia masculina. Se eles falam mil vezes que querem te ver é tesão e você não pode se assustar, mas se você falar uma única vez que quer vê-los, é porque você é uma mala que está “misturando sentimentos”. E eles podem se assustar. Que preguiça desse planetinha dos macacos e suas bananas.
E sigo com minhas frases matadoras. “Pensei em você hoje”; “Voltei antes pra te ver”; “Vamos nos ver hoje?”; “Vamos comigo na festa da minha amiga?”; “O que você vai fazer no feriado?”
(...) Sempre lembro de uma vez que fui passar cinco dias com um namorado no alto de uma montanha e ele me apareceu com um verdadeiro “kit putaria”. Passou antes no sex shop e comprou de óleo de massagem a roupinha de enfermeira. Tenho certeza que fez isso porque pensou “que porra vou fazer com uma mulher cinco dias em cima de uma montanha a não se trepar”? Se fosse algum dos seus amiguinhos eles poderiam rir, se divertir, beber, conversar, apostar corrida, jogar videogame, brincar na piscina, fazer trilha. Mas com uma mulher? Um ser estranho chamado mulher? Que porra ele iria fazer, não é mesmo?
(...) Acho de verdade que a puta da Glenn Close estragou a vida de algumas mulheres. Basta você dizer um inocente “você é legal” pro cara achar que você vai se mudar pra casa dele, mergulhar o poodle dele numa panela fervendo e parir trigêmeos bem no dia do futebol com os amigos. Da onde eles tiram que somos tão assustadoras? A gente só quer ter com quem rir no final do dia e ganhar alguns beijos no lugar certo. Nada muito diferente do que eles querem. (...)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Horas

- Que horas são?
- Seis.
- Porra, ficou claro já!
- Vambora?
- Como eu faço? Não conheço nada.
- Me segue.


E foi o que fiz. Segui. Gol geração III de cor cinza. Eu, dirigindo como todos os que estão num estado de meditação profunda – profunda embriaguez – dirigem. Pensando na vida, na cama, lembrando das piadas idiotas, pensando... Pensando... Pensando em pensar - e seguindo o carro da frente. Ele, o carro, ainda estava lá, seguindo.

Sinal vermelho, o cinza, passou. Passei. Sinal vermelho, o cinza, passou. Passei. O caminho ainda estranho. Segui. Senti que eu estava andando mais rápido do que podia, pra um bêbado – e segundo as leis do trânsito também – mas tinha que seguir, perdido e embriagado, melhor seguir.

Tudo começou ficar estranho, me senti num filme, daqueles de perseguição, mas era meu amigo, ele devia estar apressado sei lá, com fome, a gente sempre fica com fome. E vai lá ele fazendo um monte de curvas estranhas, dando volta nos mesmos quarteirões que já passamos, pensei “bom, ele deve ta querendo me mostrar alguma coisa”, só fiz a minha parte, e fiz bem. Até que ele parou. Ele? Não? Ele? Não?

Por instantes a sobriedade impera, porque pálido, o carro estaciona e de lá eu que esperava ver meu amigo comprar ou perguntar alguma coisa numa banca de jornal, vejo sair um garota, branca e levemente apavorada.

“Acho que agora já sei o caminho“, foi o que pensei e fui.

IDADE

MODERNIDADE
MODERNO
IDADE
ATIVIDADE
ATIVO
IDADE
OBSCURIDADE
OBSCURO
IDADE
MATURIDADE
MATURO
IDADE
BARBARIDADE
BÁRBARO
IDADE
INATIVIDADE
INATIVO
IDADE

DIGITAL

Digital GLOBAL
Globalizado DIGITALIZADO
In FoRMa sem AçÃo
.com VIA WeB na rede
.com coco na beach
y soul quente
MUITA GENTE
Sem mente SEM nada
Global wireless
Na Lan, com Wan, Na MAN
Com dis quete, sem claquete
Na print com motherboard
Veja o slot sem trote
Digital GLOBAL
Globalizado DIGITALIZADO
In FoRMa sem AçÃo

Castanho

Estive sempre enganado
Das ruivas às louras,
Descobri, castanho.

Das claras às escuras.
Até o gosto da castanha.
Das formiguinhas
Que perambulam
Pelo branco dos dentes
Que formam risos
Até Deus duvida – falo do horizonte
Poderia jurar que são sorrisos

Ingênuo e belo
Sim. A beleza tem dúvidas
Da criação
Será sua?
A perfeição
Prefiro as palavras
Assim, imperfeição.

Dos traços,
Das cores, dos jeitos...
Dos trejeitos,
Das imaginações,
Dos poemas,
Dos andares,
Dos futuros.

Pinto ou escrevo?
Eternamente Nuvens.
E Lua.
Sempre luas e cheias.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Céu daqueles olhos.

Podíamos ficar o dia inteiro lá, parados. Um sem falar com o outro, concentrados em nossas tarefas introspectivas. Eu disfarçava, as vezes um olhar desviado, corrigia. Inquieto, não continha o sorriso. Ela era linda. Simplesmente.

Tudo se passava em pleno silêncio, exceto o som das teclas do teclado quando pressionadas. Seguia o ritmo e eu pensava como seria bom andar de mãos dadas com ela – a mesma mão tradutora de pensamento – imaginava a pressão, o suor, a delicadeza. Na rua, num leve balançado. E minha mão, ali, junto a dela.

Uma cigana que no caminho pede a uma das mãos que se abra. Observa as linhas, faz caras e bocas e diz “Você guarda um segredo bom!”. Num ar misterioso emenda “Você está no caminho certo”.

Um caminho de céu azul, ao redor o verde predominante da mata. A estrada extensa. Caminhando a passos largos a estrada se repete. O que se vê apenas se repete. Os pássaros cantam, uma musica bonita e calma.

“A linha reta diz respeito ao seu passado” – percebo o tom de voz retorcido da cigana.

E quando abro os olhos vejo o verde, não o da mata, aquele do mar. O infinito do mar. Tentei falar, não restava nenhuma palavra, nada compreensível. Não foi possível dizer, talvez algum gesto, mas eles não expressaram nada.

Uma vez me disseram que o nada é como uma casa vazia. Ela pode ser grande e bonita, mas sem ninguém vivendo lá, ela não é nada. Nem casa.

A cigana continuava a falar, falava de coisas que eu não conhecia, coisas que ela dizia ser o meu futuro, o meu passado. Eu estranhava, nunca tinha pensado ou sequer imaginado algo parecido, nunca. Eu estranhava, mas gostava. Era gostoso pisar naquela areia fofa daquela praia paradisíaca. Correr livre, brincando com o cachorro. Jogando um galho, ele ia e voltava. Com o galho na boca. Eu sorria. A cigana continuava mostrando seus dons de clarividência. Deitado, vendo as estrelas, extasiado. A água de coco no fim da tarde, um abraço apertado.

Não me contive quando ela declarou em meio a um turbilhão de fatos confusos que ela descrevia “Sabe, esse computador ficou estranho de uns meses pra cá!” – gargalhei profundamente. Ainda estava pisando na areia da praia, debaixo das árvores, sentindo aquele abraço, aquele perfume. Eu continuava sentindo o movimento daquela mão delicada que se segurava a minha.

Tudo era silêncio novamente. A cigana se fora. O paraíso continuara.

Era difícil compreender se eu estava ou não sonhando, mas era algo único, contemplar tao de perto o mar de estrelas do profundo céu daqueles lindos olhos.

Voltei quando ouvi “Ei, aceita um chá?”.