Ele estava aflito. Não sabia o que preparar para o jantar com ela. Ela tinha 34 anos, acabara de chegar ao Brasil depois de uma longa temporada no exterior. O convite veio quando se encontraram num bar do Jardins, onde acompanhado dos amigos ela se destacava e logo chamou a atenção dele. Trocaram olhares, ela tinha um olhar verde, claro e transparente. Ele piscou – não teve tempo de pensar o quanto aquele ato poderia ser inconseqüente, talvez pudesse reprimi-la ou até mesmo afastá-la, afinal não se tem o controle sobre a outra pessoa -, mas ela reagiu bem, não piscou, mas sorriu. Ele retribuiu.
Enquanto caminhava pela feira, tentava relembrar trechos da conversa em que ela repetia inúmeras vezes que sentia falta do Brasil, dos costumes, da comida e principalmente do tempero. Em meio a gritaria costumeira das feiras brasileiras, um chuchu lhe prendeu a atenção e ele ficou ali no corredor da feira, imóvel, observando-o. Era um chuchu verde, bem grande, o sol – que era forte - batia e o chuchu brilhava, resplandecia, ele chegou a pensar que aquilo talvez fosse um sinal extra-terreno ou algo assim, mas logo tirou isso da cabeça, lembrou que nunca deu bola pra esse tipo de coisa e que um dia até chegou a brigar com os camaradas do bar do Agostinho por causa disso, jurou de pés juntos e gritou aos quatro cantos do bar que milagres, fenômenos e entidades do além não existiam e que santos só serviam pra gozar com os amigos "mais um pouquinho pro santo" , sempre acompanhado de uma viradinha no copo, deixando um pouquinho do liquido cair no chão e só depois do ritual vinha o gole na bendita cachaça.
Senão era um aviso do além, pensara então o porque ele estaria ali fincado no chão e atrapalhando o vai-e-vem das pessoas olhando para um chuchu brilhante.
Chuchu. Nunca se importou em guardar grandes lembranças de um chuchu, apesar de sua mãe o preparar com muita freqüência quando ele ainda era criança, onde ao comer ele sempre fazia cara feia, mas era obrigado a comer. Ela dizia que ele tinha que aprender a comer legumes e verduras, dizia que se as pessoas reduzissem para três dias da semana o consumo de carne, cinqüenta por cento das pessoas que morrem por problemas de coração seriam salvas. As carnes eram experimentadas em dias mais festivos – em forma de churrascos e mesmo nos churrascos havia muita salada -, e ela – sua mãe – sempre vigiava o prato dele, pra certificar-se que ele estaria comendo o arco-íris verde – como brincava ela.
Já adulto, tinha esquecido o chuchu e muitos dos seus parentes (parentes do chuchu), as vezes lembrava dos antigos churrascos, que no auge da sua fase adulta tornou-se bem constantes, dizia que seguia a tradição e só fazia nos dias festivos, mentira, teve uma vez que o fez durante quase uma semana inteira.
Fez um mês que ele entrou num regime rígido, teve que parar com as frituras e com as carnes, isso incluía os churrascos. Seu medico dizia que ele não precisava parar de vez com a carne, só que ele devia prepara-la de uma forma mais saudável e reduzir a quantidade, chegou até a aconselhar que ele comesse um pouco de carne só uma ou duas vezes por semana. Decidiu parar, sabia que se voltasse a colocar um bifinho na boca ia desandar com o regime, e poderia voltar a ter um infarto, onde foi internado e ficou dez dias sob observação dos médicos – foi lá no hospital onde conheceu Dulce, uma enfermeira atenciosa, sua nova amiga e conselheira, de lá pra cá trocavam ligações e receitas, ela era boa cozinheira nos dias de folga (um dia lá no hospital ela trouxe comida feita em casa pra ele, trouxe escondido), ela também era vegetariana – tornou-se, depois de ver um filme que citava se as pessoas reduzissem para comer carne apenas em três dias da semana a quantidade de infartos se reduziria pela metade. Foi ela quem lhe passou a receita do risoto.
Na pista tocava uma música com ritmos latinos, ele já havia experimentado alguns passos, fez escola de dança de salão durante cinco meses para conquistar uma amiga do trabalho que dançava salsa, enquanto os olhares ainda continuavam ele decidiu arriscar, chegou para perto dela e levantando a mão lhe sugeriu um convite a pista. Ela olhou em volta como se estivesse procurando por alguém, sorriu e foi.
Com vestido verde e rodado ela se deixou levar, ele segurava na cintura dela com leveza e a guiava com segurança, não eram passos de dança que exibiam dons circenses, eram habilidosos e gentis, ele havia aprendido a dançar – ele mesmo se surpreendeu. Quando a musica acabou e os seus corpos se descolaram ele sentiu que a perderia se não fizesse algo e perguntou "Você vem sempre aqui?", no que ela iria esboçar alguma reação ele emendou um sorriso e disse "Você não esperava pergunta melhor, não?", aliviado, ela sorriu. Livrou-se das conseqüências desastrosas que aquela frase batida poderia lhe causar.
Ela lhe contou da sua viagem a Europa, dos paises que visitou e confessou num amor patriótico o quanto queria ficar no Brasil. Quase choraram. Contou também que quando foi perguntado do que ela mais gostava no Brasil, sem pestanejar ela respondera que era sem dúvida a comida. A comida da mãe dela.
Quando saiu do seu estado de hipnose resolveu ir até a banca onde estava a venda o chuchu sagrado – ele tinha apelidado o chuchu – e perguntou ao vendedor de onde aquele chuchu havia saído, o feirante respondeu que o chuchu tinha vindo de uma cidade do interior chamada Chuchu Grande, ele estranhou, nunca tinha ouvido falar de uma cidade com esse nome, até suspeitou que o feirante havia quisto fazer uma gozação, mas o feirante afirmava com tanta veemência que resolveu por hora acreditar na história do feirante – o feirante que também era pescador, mas disso ele não sabia.
A receita que a Dona Dulce tinha lhe passado estava no bolso, retirou-a e conferiu em voz alta "1 xícara de chá com chuchu em pedaços, 1 colher de sopa de azeite, 1 xícara de cebola picada, ½ xícara de chá de alho porro, 1 xícara de chá de arroz arbóreo, ¼ xícara de chá de vinho branco seco, 6 xícaras de chá de água, 1 pitada de pimenta do reino branca, 1 xícara de chá de champignon fresco, 1/3 xícara de chá de queijo gorgonzola ralado, 1 xícara de chá de queijo parmesão ralada, 1 colher de chá de salsa e sal a gosto.", só faltava mesmo o chuchu, mas agora já o tinha – comprou o chuchu sagrado.
A receita da Dona Dulce veio de uma das conversas telefônicas onde ele contara sobre a mulher que conheceu num bar do Jardins.
A mulher lhe confidenciou que sentia muita falta de uma receita em especial que a mãe fazia – a mãe já falecida não mais poderia fazê-la -, era o risoto de chuchu dos encontros de domingo.
Quando a mãe faleceu ela estava em Paris, veio correndo para o Brasil, ainda pairava na geladeira da mãe um topoer com o risoto – a mãe falecera num domingo, ela chegou na terça -, exausta foi se preparar para o enterro, estava com muita fome e sem cabeça para telefones de pizzarias ou comidas rápidas, resolveu abrir a geladeira da mãe, encontrou o risoto, comeu e chorou. Fora a última vez que experimentara o sabor dos deuses – como costumava chamar ao telefone quando falava com a mãe lá da Europa.
Todos os amigos dela já tinham ido embora e o bar prestes a fechar, perceberam que a hora da despedida tinha chegado. Trocaram telefones e antes de se despedirem ele prometeu "Farei com que você sinta novamente o sabor dos deuses".
Quatro dias depois ele envia para ela uma mensagem de celular dizendo ter descoberto a receita dos deuses. Ela não respondeu.
As conversas com Dona Dulce eram permeadas de muitas perguntas, ela o aconselhava insistir, se ela realmente tinha lhe chamado a atenção, então seria muito pertinente que ele insistisse durante o período que ele permanecesse no Brasil.
Os convites eram sempre recusados, mas eles conversavam por horas no telefone ou pelos comunicadores virtuais.
Aquele era o dia, o dia do jantar sagrado e ele tinha encontrado o chuchu. Sabia que tinha que se dedicar o máximo possível, se ele não conseguisse atingir o sabor dos deuses e não a levasse para o céu, tudo poderia estar perdido. Foram horas de conversas sobre milhões de assuntos aleatórios para convence-la estar ali.
Quando a noite chegou, o risoto estava pronto. Ela tocou a campainha e ele atendeu, se cumprimentaram e ele lhe mostrou o sofá – planejara tudo – que acomodava uma rosa de cor rosada, ela desfe-se em sorrisos. Tudo seguia conforme premeditado, seguro encheu as taças, ela recusou o vinho branco e brindaram com água.
Ela não acreditou que estava ali para comer o chuchu dos deuses, ou melhor, o chuchu sagrado que tinha o sabor dos deuses que lembrava a mãe dela. Ele ligou o rádio e colocou Tom Jobim pra tocar. Conversavam a distancia enquanto ele ajeitava num ritual próprio a mesa de jantar.
Ele trocou as taças de vinho por copos. Feito, serviu o risoto. Comeram, ela já comovida agradecera o jantar, ele não se conteve e também chorou. Jantaram. Ela pediu para ele separar um pouco do risoto que sobrou. Ele o fez.
A noite se foi. O Amor se fez. E ao amanhecer ele provaram mais uma vez o sabor dos deuses.
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