domingo, 6 de janeiro de 2008

Céu daqueles olhos.

Podíamos ficar o dia inteiro lá, parados. Um sem falar com o outro, concentrados em nossas tarefas introspectivas. Eu disfarçava, as vezes um olhar desviado, corrigia. Inquieto, não continha o sorriso. Ela era linda. Simplesmente.

Tudo se passava em pleno silêncio, exceto o som das teclas do teclado quando pressionadas. Seguia o ritmo e eu pensava como seria bom andar de mãos dadas com ela – a mesma mão tradutora de pensamento – imaginava a pressão, o suor, a delicadeza. Na rua, num leve balançado. E minha mão, ali, junto a dela.

Uma cigana que no caminho pede a uma das mãos que se abra. Observa as linhas, faz caras e bocas e diz “Você guarda um segredo bom!”. Num ar misterioso emenda “Você está no caminho certo”.

Um caminho de céu azul, ao redor o verde predominante da mata. A estrada extensa. Caminhando a passos largos a estrada se repete. O que se vê apenas se repete. Os pássaros cantam, uma musica bonita e calma.

“A linha reta diz respeito ao seu passado” – percebo o tom de voz retorcido da cigana.

E quando abro os olhos vejo o verde, não o da mata, aquele do mar. O infinito do mar. Tentei falar, não restava nenhuma palavra, nada compreensível. Não foi possível dizer, talvez algum gesto, mas eles não expressaram nada.

Uma vez me disseram que o nada é como uma casa vazia. Ela pode ser grande e bonita, mas sem ninguém vivendo lá, ela não é nada. Nem casa.

A cigana continuava a falar, falava de coisas que eu não conhecia, coisas que ela dizia ser o meu futuro, o meu passado. Eu estranhava, nunca tinha pensado ou sequer imaginado algo parecido, nunca. Eu estranhava, mas gostava. Era gostoso pisar naquela areia fofa daquela praia paradisíaca. Correr livre, brincando com o cachorro. Jogando um galho, ele ia e voltava. Com o galho na boca. Eu sorria. A cigana continuava mostrando seus dons de clarividência. Deitado, vendo as estrelas, extasiado. A água de coco no fim da tarde, um abraço apertado.

Não me contive quando ela declarou em meio a um turbilhão de fatos confusos que ela descrevia “Sabe, esse computador ficou estranho de uns meses pra cá!” – gargalhei profundamente. Ainda estava pisando na areia da praia, debaixo das árvores, sentindo aquele abraço, aquele perfume. Eu continuava sentindo o movimento daquela mão delicada que se segurava a minha.

Tudo era silêncio novamente. A cigana se fora. O paraíso continuara.

Era difícil compreender se eu estava ou não sonhando, mas era algo único, contemplar tao de perto o mar de estrelas do profundo céu daqueles lindos olhos.

Voltei quando ouvi “Ei, aceita um chá?”.

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