segunda-feira, 21 de abril de 2008

Banheiro

Paredes amarelas e cadeiras pretas, a luz era baixa; Era uma lanchonete, a atendente magricela e baixinha atrás do balcão vestia um uniforme azul e estampava um sorriso mecânico. Pedi um copo de café com leite, ainda em pé fiquei a observar dois caras que revezavam suas vozes na leitura dramática de um parecido texto teatral; Faziam caras, bocas e vozes, um deles, ao contrário do outro usava bermuda, tinham cabelos longos de cor preta, eram brancos e fortes. Um com barba, o outro não. Mantinham-se sentados e bem postados.

Entre uma voz e outra, uma entonação e outra, uma pausa e outra, encontrava-me sentado num dos muitos lugares vagos encostado à parede. Cansava-me o dia mal dormido. Tirei da minha velha e companheira bolsa um livro (dividia espaço com papéis e embalagens de bombons, balas etc.).

Percebia meu sono (e o peso do dia) nos intervalos entre a leitura e a perda de consciência, não insistindo na leitura acompanhei um olhar fixa em minha direção. Construí uma indiferença, mas o olhar continuava fixo, me incomodava; a cada gole do meu café com leite eu desviava, mas não conseguia, insistia.

Uma jaqueta preta, óculos com forma arredondada, magro, cabelos grisalhos, um olhar que estava ali na mesa ao lado. Tenso, nervoso, olhos que piscavam a cada dois segundos, era inquieto. Levantou-se, ficou a admirar alguns quadros e gravuras que estavam dependuradas naquelas paredes amarelas, não tocou, somente olhou.

Curioso, percebi sua ausência, algo se foi, mas ficou a vontade de ir ao banheiro. Ao abrir a porta, ele voltou, encostado na parede, fixo, cruel, assassino. Reconstruí a indiferença, o mictório ao lado fazia questão de lembrar o cheiro forte de urina e aquele já velho e conhecido ruído, seu projetor era um gordo careca. Alguns assovios vinham de um dos biombos, alguém dava descarga e assoviava feliz, ele continuava lá, encostado à parede, calado, só observando, eu não conseguia me concentrar - abri o zíper, desajeitado mesmo e executei o velho processo, o careca também me olhava e do alto ele observava o meu processo. Em duas rápidas chacoalhadas me vi do lado de fora do banheiro, aliviado, sem medo e sem lavar as mãos.

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