segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Perdi o trem...

“Ainda são cometidas barbáries como essas...”, levanto do sofá, impaciente aperto o botão. Não agüento mais a televisão, insisto em liga-la todos os dias. Talvez por esperar que ela um dia me impressione. Por enquanto os dias continuam a apostar na eterna decepção. O dia está quente. Abafado, eu menos. Foram dias difíceis estes últimos. Quando penso neles, me falta o ar. Poderia ter feito tudo certo, fiz o contrário.

Há cinco dias recebi um telefonema, estava deitado, ouvindo um som qualquer, pensando qualquer coisa que não me lembro agora. Atendi, como atendo habitualmente qualquer telefonema. “Alô?”, o lado de lá não se abalava, então repeti “Alô!, Alô?, quem fala?”. Desliguei.

Voltei no tempo, reconstruí o passado próximo e voltei ao ponto em que parei. A porra do telefone voltou a tocar. “Alô!”. Foi só um tiro “Pai?”. Quando essas coisas acontecem é difícil explicar, mas foi como uma porrada. Aquela voz suave do outro lado e o nocaute. Há tempos não ouvia, um tempo inexato. Só consegui “Filha?”, “É pai, sou eu. Se esqueceu de mim?”, “É filha, acho que sim...”, “Só você mesmo!” – E aquele barulhinho do sorriso me atordoava.

Faz dez anos que ela se foi. A mãe levou. Anos atrás soube que estavam morando no sul, qualquer lugar daquele frio. A mãe arrumou um cara. Negro, dentes bem brancos. Usava umas roupas esquisitas, o andar também era assim. Diziam que tinha bom coração – talvez ainda tenha – não sei se morreu.

Ela – a que me chamou de pai – era branca, loura. Eu moreno. Deve ter puxado à mãe, branca, cabelos louros, olhos verdes. Meus olhos são castanhos, assim eu os vejo no espelho.

Costumávamos passear. Eu, ela e a mãe. Íamos para qualquer lugar, pegávamos o carro e íamos. Não tínhamos donos, nos amávamos. Era como se a liberdade fosse coisa dos homens. Aquele vento que entrava pela janela do carro em alta velocidade. Eu sempre olhava pro banco de trás de vez em quando e lá estava ela, na cadeirinha, sonhando. Eu sonhando acordado com a vida que eu nunca tive. E as coisas se iam. As árvores, as casinhas, os bois, as vacas, a grama, as cercas, aquilo tudo. Ía.

Aprendeu a andar quando completou um ano. Fiz festa por três meses. Hoje ela tem quatorze. Eu, mais velho que minha idade. E agora, ainda mais. O motivo: aquela voz do outro lado do telefone. Um velho sentimental, nostálgico e esquecido. Hoje é o dia do aniversário dela. Dez anos que ela se foi. Dez anos que não a vejo. Dez anos que ela me liga.

Quando ela partiu, foi-se tudo. Elas levaram minhas coisas em suas malas e esqueceram de me levar.

“Tchau pai”, outro tiro.

Fiquei. Morri com o tempo e a saudade.

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