Dei um pulo na livraria, nada tinha em mente, gosto dos clássicos, foi lá onde me meti; folheava os diversos livros; Parte dos olhares nos livros, parte nas pessoas concentradas, essas que faziam o mesmo que eu; reparava nos andares, nas blusas, nas calças, nas cores, nos olhares, nas mãos, nos gestos, nas intenções. Esse último eu apenas intuía, de acordo com minha breve experiência, divertido era, sem dúvidas, me deleitava com todos esses prazeres, inclusive com os sons indecifráveis das falas ao lado, dos falantes ao alto e dos passos abaixo.
Não me decidia por nenhum, era nítida minha indiferença com os objetos (que por vezes chamo de livros), meu objeto de desejo eram as pessoas que por ali circulavam, era algo possessivo, me controlava. Não contive algumas tosses e alguns gestos desajeitados quando ele me perguntou “aqui é a sessão de literatura estrangeira?”, olhei para os lados, me recompus e respondi em gestos e falas “sim, exatamente”, seu olhar fixou-se – eu não entendia aquele olhar (durou quase uma eternidade de cinco segundos) -, “Renato, é você?”, não podia acreditar, era ele, meu irmão. Abraço apertado, cinco anos que não nos víamos, ele estava diferente, estávamos diferente.
“Você está aqui, porque não ligou, mandou e-mail dizendo que viria, porque?” – Não contendo eu disse.
“Surpresa, queria te fazer uma surpresa”.
“E fez, e como fez! Seu, seu, seu malandro” – Dei-lhe outro abraço.
Ele estava barbudo, cabeludo, vestia uma calça jeans e uma camiseta verde, mais gordo de que quando partiu, deslumbrava beleza e sorrisos. Reparei que usava um relógio prateado, bonito – ele não tinha o costume de usar relógios, nem correntes, qualquer coisas dependurada no corpo – mas realmente tinha mudado, agora usava pulseira, o tal relógio prateado, um cordão no pescoço (era um cordão todo trabalhado, parecia ser feito à mão), antes seu cabelo era curto, usava óculos, não tinha barba, usava roupas com pouca cor, na verdade variava entre o preto e o branco, usava sapatos, quase nunca tênis – seu tênis vermelho agora reluzia –; Mudança impecável, irreconhecível seria se não fosse o olhar, continuava o mesmo, confesso não o ter reconhecido pronto – o olhar tinha ficado vago em minha memória preocupada com os problemas cotidianos -, agora tudo voltou, os bons momentos, nossas conversas descompromissadas, nossas lágrimas derramadas por mulheres confusas, ou muitas vezes decididas, autoconfiantes, que nos descartavam com uma certeza cruel, demolidora.
“O que fez durante todo esse tempo?” – Eu sabia que ele tinha ido para Manaus, no Pantanal, foi estudar biologia – antes eu pensava que ele ia ser engenheiro, agora gostava do biólogo; Perdemos o contato por causa de uma briga, daqueles sem-pé-nem-cabeça, sustentamos nossos orgulhos, perdemos nossos telefones, era só eu e eles, nossos pais já estavam em um bom lugar (tem dias que eu acredito nisso, outros nem tanto), tínhamos somente ambos, num desacordo não nos queríamos ou por anos pensamos isso, o abraço provou que nos amávamos mais que nunca, reconheço que fizemos falta um ao outro.
...
Tem coisa que não muda; Tem coisa que a gente sente, finge, mas sente. E nunca deixaremos de sentir. Nunca.
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