Ela olhou nos olhos dele e quis declamar Pessoa, não conseguiu. Ele pouco percebeu. Sentaram-se sobre a calçada e ficaram observando os carros. Não tinham o que falar, mas falaram do tempo. “Vai fazer calor hoje, né?” – Ela rompeu olhando pra ele. Ele deu de ombros.
Ele distante observava um ônibus vermelho que parou no ponto, mas logo se foi. Ele continuou olhando. Uma menina - alguns chamariam de mulher -, branca, de média estatura. Estava com as mãos no cabelo, amarrando-os, formava um rabo-de-cavalo. Era um sol brando, típico da primavera.
Ele sentiu sua mão ser tocada. Era ela, e logo falou “Você está bravo comigo?”. “Espero que você entenda minha posição” – despistando a mão dela.
“Eu sei que errei” – Ela cruzou os braços.
A garota do rabo-de-cavalo havia ido embora. Ele a procurou com olhar, não achou. Ficou cabisbaixo olhando para o chão, talvez decepcionado por ter perdido de vista a do rabo-de-cavalo.
“Mas você tem que me perdoar. Sabe o que sinto por ti” – Voltou ela a falar.
“Não sei se sei bem o que sente por mim. Vai passar” – Ele ergueu a cabeça.
“Você tem que entender que foi mais forte que eu, me senti sozinha, desprotegida. Você já se sentiu assim? Me diz, vai, me diz” – Mais uma vez procurando a mão dele.
Ele ficou pensativo. Voltou a olhar os carros. Entreteve-se por algum tempo com as placas de trânsito, lembrou dos tempos da auto-escola. Da vez que bateu o carro da auto-escola por causa de uma conversa interessante sobre mitologia com a instrutora. Quando falavam de Zeus, ela rindo pegou no braço dele. Ele olhou fixamente nos olhos da loura, o olhar somente acabou quando foram interrompidos com o impacto do carro no poste.
“Eu não sei” – Foi o que ele disse, ainda se lembrando da instrutora de auto-escola.
“Eu sei que não é uma coisa fácil de se perdoar, eu também não saberia muito que fazer se fosse comigo” – Ela insistiu num abraço.
A do rabo-de-cavalo que antes havia sumido, voltou. Ele paralisou e ficou como antes. Distante. Dessa vez a do cavalo sorriu. Olhou pra ele e sorriu. Ele disfarçou.
Só teve tempo de dizer: “É essas coisas acontecem” – segurou na mão dela e se abraçaram.
A do rabo, deu sinal, e subiu no ônibus.
Um comentário:
como as cores
não da pra se prender a uma só
a junção faz o branco
mas eh necessario conhecer todas para ver o branco
bravo!!
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