Não dormiu a noite, revezou o sono com as camisetas, calças, shorts e as lembranças de um passado guardado numa caixinha rosa no fundo do armário. Era a promessa de uma outra vida, não essa. Nem melhor, nem pior. Folheou por algum tempo os bilhetes amarelados pelo tempo. Depois vieram as cartas e a noite prosseguiu.
Malas prontas, ela se preocupou com o tempo. Olhou para o relógio, ainda era cinco da manhã. Sobraram-lhe duas horas até o horário combinado. Não quis dormir porque estava com medo de deitar e desmaiar. Tinha experiência. Provavelmente isso aconteceria se ficasse dando sopa no sofá sem nada fazer. Ele - o sono -, viria cedo ou tarde, tão avassalador que não seria possível resistir. Mas não antes de estar no carro. Foi o que aconteceu, duas horas depois com algum atraso elas chegam – as amigas.
Risonhas e com uma garrafa de vodka nas mãos uma delas sobressai “Vamos todas beber o mundo!” E repetia com afinco. Durou toda a viagem. Beberam o mundo que estava espremido dentro daquela garrafa. Menos uma. Calada, de quando mostrava um sorriso. As piadas eram várias. A graça nas piadas, pouca. Era a calada quem dirigia. Foi assim até chegar.
Chegou-se. Com isso também o cansaço, estampado nos rostos pálidos e bêbados. Não tiraram as malas, nem as roupas. A cama sem lençol, assim ficou. Antes tomaram água – corrijo, a calada tomou água. O dia raiou, o galo não cantou – havia morrido dois dias antes – e as costas doíam no meio da tarde. Formou-se fila no banheiro, risadas no café e perfumes dispostos à uma caminhada.
Andaram pelas ruelas vadias. “Vejo-lhe agora estranha pintura que sai da moldura escapa pro ar. É um van gogh da fase mais dura quem sem a loucura não dá, eu não sei explicar”. Tocava num casebre. Não esconderam a comoção. Sentaram ali, do lado da casinha e escutaram. Até choraram. Era uma música do Sérgio Sampaio.
Estavam em Paraty, eram dias calmos. O verão já se fora, e o sol se esquecera disso. As águas não se abalavam, talvez por isso eram belas. Os óculos escuros refletiam a luz do sol, até que não puderam mais. A sombra das árvores agora tomava o controle. A cachoeira bradava sua música e elas riam. Riam do nada, das formas estranhas das folhas e do céu azul. Riam umas das outras.
Um par de chinelos, uma camiseta e uma saia foram o que se encontrou no chão. No ar, um som – o das águas. A calada tomou coragem e resolveu falar, sem as palavras. Um salto lindo, espontâneo. A água era gelada, ela quente. Uma. Duas. Três. Estavam todas na água, rindo a toa, sentindo o frio da água. Uma delas até pensou em ficar ali pra vida toda. Mudou de idéia quando a fome bateu.
O dia logo acabou e depois a semana. Foi quando voltaram e a calada resolveu novamente a falar, agora com palavras “Tchau meninas, adorei a viagem!”.
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