O sol do verão despontava no céu daqueles dias em que a noite costuma atrasar sua chegada – o caos do amor; Talvez ela, à noite, tenha ficado apaixonada por alguma estrela qualquer, demorou-se no banho por imaginar, enquanto a água caía, seu grande amado – e assim, esse breve intervalo em que o sol se vai e a noite se atrasa, alguns, inclusive eu, o chamam de “tarde romântica”.
Tomava seu chop, como quem não quer nada, e realmente não queria. Em três goles a música mudou, tocou uma baladinha pop. Ela não gostou muito, deu a entender quando colocou seu fone de ouvido e ficou a mexer no aparelhinho minúsculo de MP3.
“Uma breja e um cardápio” – Ele obedeceu, serviu o copo e deixou a garrafa. Foi o que pedi. Olhei o cardápio cuidadosamente, mas não escolhi. Dei um bico na cerveja. Não sei o que motiva alguém se levantar da mesa e ir até a mesa de outra pessoa, interrompe-la naquilo que estiver fazendo e perguntar seu nome. Foi o que eu fiz. Fiquei pensando nisso depois, mas o que está feito, está feito.
“Com licença!” – Eu disse meio ressabiado e apoiando levemente minhas mãos sobre a mesa.
Ela desconcertada me olhou. Concertou, levou as mãos sobre os fones de ouvido e os retirou. Eu disse mais algumas breves palavras e ela atendeu meu pedido. Sentei. Ela desligou o som. Eu não sabia muito que dizer, mas disse. Ela sorriu e eu me senti aprovado.
“Jaqueline” foi o que ela respondeu quando perguntei seu nome. Era uma garota bela, estava estudando para ser atriz. E era. Fala empostada, corpo ereto e movimentos pensados. Olhar fulminante, e me fulminava. Eu não tinha defesas, e apenas sorria.
“O que me chamou atenção em você e me fez vir até aqui foi o fato de...” – Não tive coragem de continuar, tinha caído na real. Estava conversando com uma garota que não conhecia, depois de tê-la abordado de maneira estranha. Muitas pessoas fazem isso, eu não.
“O fato de...” – Curiosa.
O riso nervoso me saiu. Eu sentia que precisava terminar o que comecei. É difícil nessas horas. Por um instante pensei quanto tempo demoraria para viajar daqui até as Ilhas Caimãs, quando voltei, ela ainda esta lá, com seu olhar fulminante.
“O fato dos fones no ouvido. Achei adorável o jeito como colocou os fones no ouvido. Foi isso. Foi o que me fez vir até aqui”.
Ela sorriu, na verdade, gargalhou. Segurou minha mão que estava sobre a mesa, depois das gargalhadas, que logo virou uma risada doce e suave, ela apertou e soltou.
“Você é o cara mais engraçado que eu conheci”
A história continuou. E eu fiquei pensando nessas tardes românticas. Naquilo que a gente não controla. Instintivo. Podemos num instante puxar o gatilho, ou apenas fazer um elogio – ambos fazem toda a diferença.
Vendo ou Alugo Ninguém comprou a minha alma Só porque eu quis vender a preço de banana Descascada Agora ofereço nos viadutos, nos prostíbulos Nos botecos Vendo ou Alugo (nos blogs também)
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
Acontece
Ela olhou nos olhos dele e quis declamar Pessoa, não conseguiu. Ele pouco percebeu. Sentaram-se sobre a calçada e ficaram observando os carros. Não tinham o que falar, mas falaram do tempo. “Vai fazer calor hoje, né?” – Ela rompeu olhando pra ele. Ele deu de ombros.
Ele distante observava um ônibus vermelho que parou no ponto, mas logo se foi. Ele continuou olhando. Uma menina - alguns chamariam de mulher -, branca, de média estatura. Estava com as mãos no cabelo, amarrando-os, formava um rabo-de-cavalo. Era um sol brando, típico da primavera.
Ele sentiu sua mão ser tocada. Era ela, e logo falou “Você está bravo comigo?”. “Espero que você entenda minha posição” – despistando a mão dela.
“Eu sei que errei” – Ela cruzou os braços.
A garota do rabo-de-cavalo havia ido embora. Ele a procurou com olhar, não achou. Ficou cabisbaixo olhando para o chão, talvez decepcionado por ter perdido de vista a do rabo-de-cavalo.
“Mas você tem que me perdoar. Sabe o que sinto por ti” – Voltou ela a falar.
“Não sei se sei bem o que sente por mim. Vai passar” – Ele ergueu a cabeça.
“Você tem que entender que foi mais forte que eu, me senti sozinha, desprotegida. Você já se sentiu assim? Me diz, vai, me diz” – Mais uma vez procurando a mão dele.
Ele ficou pensativo. Voltou a olhar os carros. Entreteve-se por algum tempo com as placas de trânsito, lembrou dos tempos da auto-escola. Da vez que bateu o carro da auto-escola por causa de uma conversa interessante sobre mitologia com a instrutora. Quando falavam de Zeus, ela rindo pegou no braço dele. Ele olhou fixamente nos olhos da loura, o olhar somente acabou quando foram interrompidos com o impacto do carro no poste.
“Eu não sei” – Foi o que ele disse, ainda se lembrando da instrutora de auto-escola.
“Eu sei que não é uma coisa fácil de se perdoar, eu também não saberia muito que fazer se fosse comigo” – Ela insistiu num abraço.
A do rabo-de-cavalo que antes havia sumido, voltou. Ele paralisou e ficou como antes. Distante. Dessa vez a do cavalo sorriu. Olhou pra ele e sorriu. Ele disfarçou.
Só teve tempo de dizer: “É essas coisas acontecem” – segurou na mão dela e se abraçaram.
A do rabo, deu sinal, e subiu no ônibus.
Ele distante observava um ônibus vermelho que parou no ponto, mas logo se foi. Ele continuou olhando. Uma menina - alguns chamariam de mulher -, branca, de média estatura. Estava com as mãos no cabelo, amarrando-os, formava um rabo-de-cavalo. Era um sol brando, típico da primavera.
Ele sentiu sua mão ser tocada. Era ela, e logo falou “Você está bravo comigo?”. “Espero que você entenda minha posição” – despistando a mão dela.
“Eu sei que errei” – Ela cruzou os braços.
A garota do rabo-de-cavalo havia ido embora. Ele a procurou com olhar, não achou. Ficou cabisbaixo olhando para o chão, talvez decepcionado por ter perdido de vista a do rabo-de-cavalo.
“Mas você tem que me perdoar. Sabe o que sinto por ti” – Voltou ela a falar.
“Não sei se sei bem o que sente por mim. Vai passar” – Ele ergueu a cabeça.
“Você tem que entender que foi mais forte que eu, me senti sozinha, desprotegida. Você já se sentiu assim? Me diz, vai, me diz” – Mais uma vez procurando a mão dele.
Ele ficou pensativo. Voltou a olhar os carros. Entreteve-se por algum tempo com as placas de trânsito, lembrou dos tempos da auto-escola. Da vez que bateu o carro da auto-escola por causa de uma conversa interessante sobre mitologia com a instrutora. Quando falavam de Zeus, ela rindo pegou no braço dele. Ele olhou fixamente nos olhos da loura, o olhar somente acabou quando foram interrompidos com o impacto do carro no poste.
“Eu não sei” – Foi o que ele disse, ainda se lembrando da instrutora de auto-escola.
“Eu sei que não é uma coisa fácil de se perdoar, eu também não saberia muito que fazer se fosse comigo” – Ela insistiu num abraço.
A do rabo-de-cavalo que antes havia sumido, voltou. Ele paralisou e ficou como antes. Distante. Dessa vez a do cavalo sorriu. Olhou pra ele e sorriu. Ele disfarçou.
Só teve tempo de dizer: “É essas coisas acontecem” – segurou na mão dela e se abraçaram.
A do rabo, deu sinal, e subiu no ônibus.
terça-feira, 12 de dezembro de 2006
Malas prontas
Não dormiu a noite, revezou o sono com as camisetas, calças, shorts e as lembranças de um passado guardado numa caixinha rosa no fundo do armário. Era a promessa de uma outra vida, não essa. Nem melhor, nem pior. Folheou por algum tempo os bilhetes amarelados pelo tempo. Depois vieram as cartas e a noite prosseguiu.
Malas prontas, ela se preocupou com o tempo. Olhou para o relógio, ainda era cinco da manhã. Sobraram-lhe duas horas até o horário combinado. Não quis dormir porque estava com medo de deitar e desmaiar. Tinha experiência. Provavelmente isso aconteceria se ficasse dando sopa no sofá sem nada fazer. Ele - o sono -, viria cedo ou tarde, tão avassalador que não seria possível resistir. Mas não antes de estar no carro. Foi o que aconteceu, duas horas depois com algum atraso elas chegam – as amigas.
Risonhas e com uma garrafa de vodka nas mãos uma delas sobressai “Vamos todas beber o mundo!” E repetia com afinco. Durou toda a viagem. Beberam o mundo que estava espremido dentro daquela garrafa. Menos uma. Calada, de quando mostrava um sorriso. As piadas eram várias. A graça nas piadas, pouca. Era a calada quem dirigia. Foi assim até chegar.
Chegou-se. Com isso também o cansaço, estampado nos rostos pálidos e bêbados. Não tiraram as malas, nem as roupas. A cama sem lençol, assim ficou. Antes tomaram água – corrijo, a calada tomou água. O dia raiou, o galo não cantou – havia morrido dois dias antes – e as costas doíam no meio da tarde. Formou-se fila no banheiro, risadas no café e perfumes dispostos à uma caminhada.
Andaram pelas ruelas vadias. “Vejo-lhe agora estranha pintura que sai da moldura escapa pro ar. É um van gogh da fase mais dura quem sem a loucura não dá, eu não sei explicar”. Tocava num casebre. Não esconderam a comoção. Sentaram ali, do lado da casinha e escutaram. Até choraram. Era uma música do Sérgio Sampaio.
Estavam em Paraty, eram dias calmos. O verão já se fora, e o sol se esquecera disso. As águas não se abalavam, talvez por isso eram belas. Os óculos escuros refletiam a luz do sol, até que não puderam mais. A sombra das árvores agora tomava o controle. A cachoeira bradava sua música e elas riam. Riam do nada, das formas estranhas das folhas e do céu azul. Riam umas das outras.
Um par de chinelos, uma camiseta e uma saia foram o que se encontrou no chão. No ar, um som – o das águas. A calada tomou coragem e resolveu falar, sem as palavras. Um salto lindo, espontâneo. A água era gelada, ela quente. Uma. Duas. Três. Estavam todas na água, rindo a toa, sentindo o frio da água. Uma delas até pensou em ficar ali pra vida toda. Mudou de idéia quando a fome bateu.
O dia logo acabou e depois a semana. Foi quando voltaram e a calada resolveu novamente a falar, agora com palavras “Tchau meninas, adorei a viagem!”.
Malas prontas, ela se preocupou com o tempo. Olhou para o relógio, ainda era cinco da manhã. Sobraram-lhe duas horas até o horário combinado. Não quis dormir porque estava com medo de deitar e desmaiar. Tinha experiência. Provavelmente isso aconteceria se ficasse dando sopa no sofá sem nada fazer. Ele - o sono -, viria cedo ou tarde, tão avassalador que não seria possível resistir. Mas não antes de estar no carro. Foi o que aconteceu, duas horas depois com algum atraso elas chegam – as amigas.
Risonhas e com uma garrafa de vodka nas mãos uma delas sobressai “Vamos todas beber o mundo!” E repetia com afinco. Durou toda a viagem. Beberam o mundo que estava espremido dentro daquela garrafa. Menos uma. Calada, de quando mostrava um sorriso. As piadas eram várias. A graça nas piadas, pouca. Era a calada quem dirigia. Foi assim até chegar.
Chegou-se. Com isso também o cansaço, estampado nos rostos pálidos e bêbados. Não tiraram as malas, nem as roupas. A cama sem lençol, assim ficou. Antes tomaram água – corrijo, a calada tomou água. O dia raiou, o galo não cantou – havia morrido dois dias antes – e as costas doíam no meio da tarde. Formou-se fila no banheiro, risadas no café e perfumes dispostos à uma caminhada.
Andaram pelas ruelas vadias. “Vejo-lhe agora estranha pintura que sai da moldura escapa pro ar. É um van gogh da fase mais dura quem sem a loucura não dá, eu não sei explicar”. Tocava num casebre. Não esconderam a comoção. Sentaram ali, do lado da casinha e escutaram. Até choraram. Era uma música do Sérgio Sampaio.
Estavam em Paraty, eram dias calmos. O verão já se fora, e o sol se esquecera disso. As águas não se abalavam, talvez por isso eram belas. Os óculos escuros refletiam a luz do sol, até que não puderam mais. A sombra das árvores agora tomava o controle. A cachoeira bradava sua música e elas riam. Riam do nada, das formas estranhas das folhas e do céu azul. Riam umas das outras.
Um par de chinelos, uma camiseta e uma saia foram o que se encontrou no chão. No ar, um som – o das águas. A calada tomou coragem e resolveu falar, sem as palavras. Um salto lindo, espontâneo. A água era gelada, ela quente. Uma. Duas. Três. Estavam todas na água, rindo a toa, sentindo o frio da água. Uma delas até pensou em ficar ali pra vida toda. Mudou de idéia quando a fome bateu.
O dia logo acabou e depois a semana. Foi quando voltaram e a calada resolveu novamente a falar, agora com palavras “Tchau meninas, adorei a viagem!”.
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006
Perdi o trem...
“Ainda são cometidas barbáries como essas...”, levanto do sofá, impaciente aperto o botão. Não agüento mais a televisão, insisto em liga-la todos os dias. Talvez por esperar que ela um dia me impressione. Por enquanto os dias continuam a apostar na eterna decepção. O dia está quente. Abafado, eu menos. Foram dias difíceis estes últimos. Quando penso neles, me falta o ar. Poderia ter feito tudo certo, fiz o contrário.
Há cinco dias recebi um telefonema, estava deitado, ouvindo um som qualquer, pensando qualquer coisa que não me lembro agora. Atendi, como atendo habitualmente qualquer telefonema. “Alô?”, o lado de lá não se abalava, então repeti “Alô!, Alô?, quem fala?”. Desliguei.
Voltei no tempo, reconstruí o passado próximo e voltei ao ponto em que parei. A porra do telefone voltou a tocar. “Alô!”. Foi só um tiro “Pai?”. Quando essas coisas acontecem é difícil explicar, mas foi como uma porrada. Aquela voz suave do outro lado e o nocaute. Há tempos não ouvia, um tempo inexato. Só consegui “Filha?”, “É pai, sou eu. Se esqueceu de mim?”, “É filha, acho que sim...”, “Só você mesmo!” – E aquele barulhinho do sorriso me atordoava.
Faz dez anos que ela se foi. A mãe levou. Anos atrás soube que estavam morando no sul, qualquer lugar daquele frio. A mãe arrumou um cara. Negro, dentes bem brancos. Usava umas roupas esquisitas, o andar também era assim. Diziam que tinha bom coração – talvez ainda tenha – não sei se morreu.
Ela – a que me chamou de pai – era branca, loura. Eu moreno. Deve ter puxado à mãe, branca, cabelos louros, olhos verdes. Meus olhos são castanhos, assim eu os vejo no espelho.
Costumávamos passear. Eu, ela e a mãe. Íamos para qualquer lugar, pegávamos o carro e íamos. Não tínhamos donos, nos amávamos. Era como se a liberdade fosse coisa dos homens. Aquele vento que entrava pela janela do carro em alta velocidade. Eu sempre olhava pro banco de trás de vez em quando e lá estava ela, na cadeirinha, sonhando. Eu sonhando acordado com a vida que eu nunca tive. E as coisas se iam. As árvores, as casinhas, os bois, as vacas, a grama, as cercas, aquilo tudo. Ía.
Aprendeu a andar quando completou um ano. Fiz festa por três meses. Hoje ela tem quatorze. Eu, mais velho que minha idade. E agora, ainda mais. O motivo: aquela voz do outro lado do telefone. Um velho sentimental, nostálgico e esquecido. Hoje é o dia do aniversário dela. Dez anos que ela se foi. Dez anos que não a vejo. Dez anos que ela me liga.
Quando ela partiu, foi-se tudo. Elas levaram minhas coisas em suas malas e esqueceram de me levar.
“Tchau pai”, outro tiro.
Fiquei. Morri com o tempo e a saudade.
Há cinco dias recebi um telefonema, estava deitado, ouvindo um som qualquer, pensando qualquer coisa que não me lembro agora. Atendi, como atendo habitualmente qualquer telefonema. “Alô?”, o lado de lá não se abalava, então repeti “Alô!, Alô?, quem fala?”. Desliguei.
Voltei no tempo, reconstruí o passado próximo e voltei ao ponto em que parei. A porra do telefone voltou a tocar. “Alô!”. Foi só um tiro “Pai?”. Quando essas coisas acontecem é difícil explicar, mas foi como uma porrada. Aquela voz suave do outro lado e o nocaute. Há tempos não ouvia, um tempo inexato. Só consegui “Filha?”, “É pai, sou eu. Se esqueceu de mim?”, “É filha, acho que sim...”, “Só você mesmo!” – E aquele barulhinho do sorriso me atordoava.
Faz dez anos que ela se foi. A mãe levou. Anos atrás soube que estavam morando no sul, qualquer lugar daquele frio. A mãe arrumou um cara. Negro, dentes bem brancos. Usava umas roupas esquisitas, o andar também era assim. Diziam que tinha bom coração – talvez ainda tenha – não sei se morreu.
Ela – a que me chamou de pai – era branca, loura. Eu moreno. Deve ter puxado à mãe, branca, cabelos louros, olhos verdes. Meus olhos são castanhos, assim eu os vejo no espelho.
Costumávamos passear. Eu, ela e a mãe. Íamos para qualquer lugar, pegávamos o carro e íamos. Não tínhamos donos, nos amávamos. Era como se a liberdade fosse coisa dos homens. Aquele vento que entrava pela janela do carro em alta velocidade. Eu sempre olhava pro banco de trás de vez em quando e lá estava ela, na cadeirinha, sonhando. Eu sonhando acordado com a vida que eu nunca tive. E as coisas se iam. As árvores, as casinhas, os bois, as vacas, a grama, as cercas, aquilo tudo. Ía.
Aprendeu a andar quando completou um ano. Fiz festa por três meses. Hoje ela tem quatorze. Eu, mais velho que minha idade. E agora, ainda mais. O motivo: aquela voz do outro lado do telefone. Um velho sentimental, nostálgico e esquecido. Hoje é o dia do aniversário dela. Dez anos que ela se foi. Dez anos que não a vejo. Dez anos que ela me liga.
Quando ela partiu, foi-se tudo. Elas levaram minhas coisas em suas malas e esqueceram de me levar.
“Tchau pai”, outro tiro.
Fiquei. Morri com o tempo e a saudade.
sexta-feira, 8 de dezembro de 2006
Daqui-alí
Dei um pulo na livraria, nada tinha em mente, gosto dos clássicos, foi lá onde me meti; folheava os diversos livros; Parte dos olhares nos livros, parte nas pessoas concentradas, essas que faziam o mesmo que eu; reparava nos andares, nas blusas, nas calças, nas cores, nos olhares, nas mãos, nos gestos, nas intenções. Esse último eu apenas intuía, de acordo com minha breve experiência, divertido era, sem dúvidas, me deleitava com todos esses prazeres, inclusive com os sons indecifráveis das falas ao lado, dos falantes ao alto e dos passos abaixo.
Não me decidia por nenhum, era nítida minha indiferença com os objetos (que por vezes chamo de livros), meu objeto de desejo eram as pessoas que por ali circulavam, era algo possessivo, me controlava. Não contive algumas tosses e alguns gestos desajeitados quando ele me perguntou “aqui é a sessão de literatura estrangeira?”, olhei para os lados, me recompus e respondi em gestos e falas “sim, exatamente”, seu olhar fixou-se – eu não entendia aquele olhar (durou quase uma eternidade de cinco segundos) -, “Renato, é você?”, não podia acreditar, era ele, meu irmão. Abraço apertado, cinco anos que não nos víamos, ele estava diferente, estávamos diferente.
“Você está aqui, porque não ligou, mandou e-mail dizendo que viria, porque?” – Não contendo eu disse.
“Surpresa, queria te fazer uma surpresa”.
“E fez, e como fez! Seu, seu, seu malandro” – Dei-lhe outro abraço.
Ele estava barbudo, cabeludo, vestia uma calça jeans e uma camiseta verde, mais gordo de que quando partiu, deslumbrava beleza e sorrisos. Reparei que usava um relógio prateado, bonito – ele não tinha o costume de usar relógios, nem correntes, qualquer coisas dependurada no corpo – mas realmente tinha mudado, agora usava pulseira, o tal relógio prateado, um cordão no pescoço (era um cordão todo trabalhado, parecia ser feito à mão), antes seu cabelo era curto, usava óculos, não tinha barba, usava roupas com pouca cor, na verdade variava entre o preto e o branco, usava sapatos, quase nunca tênis – seu tênis vermelho agora reluzia –; Mudança impecável, irreconhecível seria se não fosse o olhar, continuava o mesmo, confesso não o ter reconhecido pronto – o olhar tinha ficado vago em minha memória preocupada com os problemas cotidianos -, agora tudo voltou, os bons momentos, nossas conversas descompromissadas, nossas lágrimas derramadas por mulheres confusas, ou muitas vezes decididas, autoconfiantes, que nos descartavam com uma certeza cruel, demolidora.
“O que fez durante todo esse tempo?” – Eu sabia que ele tinha ido para Manaus, no Pantanal, foi estudar biologia – antes eu pensava que ele ia ser engenheiro, agora gostava do biólogo; Perdemos o contato por causa de uma briga, daqueles sem-pé-nem-cabeça, sustentamos nossos orgulhos, perdemos nossos telefones, era só eu e eles, nossos pais já estavam em um bom lugar (tem dias que eu acredito nisso, outros nem tanto), tínhamos somente ambos, num desacordo não nos queríamos ou por anos pensamos isso, o abraço provou que nos amávamos mais que nunca, reconheço que fizemos falta um ao outro.
...
Tem coisa que não muda; Tem coisa que a gente sente, finge, mas sente. E nunca deixaremos de sentir. Nunca.
Não me decidia por nenhum, era nítida minha indiferença com os objetos (que por vezes chamo de livros), meu objeto de desejo eram as pessoas que por ali circulavam, era algo possessivo, me controlava. Não contive algumas tosses e alguns gestos desajeitados quando ele me perguntou “aqui é a sessão de literatura estrangeira?”, olhei para os lados, me recompus e respondi em gestos e falas “sim, exatamente”, seu olhar fixou-se – eu não entendia aquele olhar (durou quase uma eternidade de cinco segundos) -, “Renato, é você?”, não podia acreditar, era ele, meu irmão. Abraço apertado, cinco anos que não nos víamos, ele estava diferente, estávamos diferente.
“Você está aqui, porque não ligou, mandou e-mail dizendo que viria, porque?” – Não contendo eu disse.
“Surpresa, queria te fazer uma surpresa”.
“E fez, e como fez! Seu, seu, seu malandro” – Dei-lhe outro abraço.
Ele estava barbudo, cabeludo, vestia uma calça jeans e uma camiseta verde, mais gordo de que quando partiu, deslumbrava beleza e sorrisos. Reparei que usava um relógio prateado, bonito – ele não tinha o costume de usar relógios, nem correntes, qualquer coisas dependurada no corpo – mas realmente tinha mudado, agora usava pulseira, o tal relógio prateado, um cordão no pescoço (era um cordão todo trabalhado, parecia ser feito à mão), antes seu cabelo era curto, usava óculos, não tinha barba, usava roupas com pouca cor, na verdade variava entre o preto e o branco, usava sapatos, quase nunca tênis – seu tênis vermelho agora reluzia –; Mudança impecável, irreconhecível seria se não fosse o olhar, continuava o mesmo, confesso não o ter reconhecido pronto – o olhar tinha ficado vago em minha memória preocupada com os problemas cotidianos -, agora tudo voltou, os bons momentos, nossas conversas descompromissadas, nossas lágrimas derramadas por mulheres confusas, ou muitas vezes decididas, autoconfiantes, que nos descartavam com uma certeza cruel, demolidora.
“O que fez durante todo esse tempo?” – Eu sabia que ele tinha ido para Manaus, no Pantanal, foi estudar biologia – antes eu pensava que ele ia ser engenheiro, agora gostava do biólogo; Perdemos o contato por causa de uma briga, daqueles sem-pé-nem-cabeça, sustentamos nossos orgulhos, perdemos nossos telefones, era só eu e eles, nossos pais já estavam em um bom lugar (tem dias que eu acredito nisso, outros nem tanto), tínhamos somente ambos, num desacordo não nos queríamos ou por anos pensamos isso, o abraço provou que nos amávamos mais que nunca, reconheço que fizemos falta um ao outro.
...
Tem coisa que não muda; Tem coisa que a gente sente, finge, mas sente. E nunca deixaremos de sentir. Nunca.
segunda-feira, 4 de dezembro de 2006
Fragmentos I
Quem diria que um dia ela estaria lá, toda de branco, sapatos pretos – brilhantes - e um chapéu anos 70. Tirou-me o sorriso de imediato.
“Oi! O que faz por aqui?” – perguntei, estávamos em meio uma avenida movimentada, transeuntes por todos os lados, dia ensolarado.
“Estava te esperando” – virou-se de lado, como se quisesse que eu reparasse em seu visual.
“Está bonita”
“Alguém tem que estar bonito por aqui, não acha?” – sorrindo falou.
Foi quando eu me olhei, de cima-abaixo, maltrapilho eu estava, também podia, acordei cedo, sem muita inspiração – e acho que alguns dias realmente é preciso muita inspiração - , vesti qualquer coisa e saí, tinha ido resolver problemas financeiros, minha vida não estava em sua melhor fase, minha mulher havia me largado há dois meses, quase nesta mesma data troquei de emprego, não me dei muito bem no atual; fase de adaptação e expectativas frustradas; barba e cabelo por fazer - não que eu ligasse, mas eram nítidos sinais de desleixo - , era preciso mudar eu sabia, não sabia como.
Ela estava lá, linda, sorrindo pra mim, olhos que se escondiam através do escuro dos óculos. Olhos que eu sabia verdes e brilhantes, combinavam com sua pele branca.
“É, não tenho me cuidado o bastante” - voz baixa, numa certa vergonha.
“Não faça charme, você está bem, eu até gosto desse seu estilo”
“Não penso nessas coisas ultimamente, aliás, tenho pensado em pouca coisa”
“Não vai me convidar para um café, desde quando deixou de ficar gentil?” – Segurou na minha mão.
Não tive fala, apenas retribuí apertando ainda mais sua mão, e fomos. Pedi dois cafés, sentamos numas cadeiras vagas recostadas ao balcão. O tempo voou.
Esqueci-me das roupas, por instantes da minha tristeza – apenas de quando em quando lembrava do gosto do café – não sei se prestava atenção na conversa, mas lembro muito dos sorrisos, da pele branca, dos olhos verdes, da mão que me acariciava e das bobagens que eu pensava.
Rompi quando depois de uma eternidade conformada em 10 minutos ela me disse “Estou partindo para Nova Yorque, me faltam apenas algumas horas”.
Me sobrou um abraço, um beijo e uma partida. Ás vezes essas lembranças.
“Oi! O que faz por aqui?” – perguntei, estávamos em meio uma avenida movimentada, transeuntes por todos os lados, dia ensolarado.
“Estava te esperando” – virou-se de lado, como se quisesse que eu reparasse em seu visual.
“Está bonita”
“Alguém tem que estar bonito por aqui, não acha?” – sorrindo falou.
Foi quando eu me olhei, de cima-abaixo, maltrapilho eu estava, também podia, acordei cedo, sem muita inspiração – e acho que alguns dias realmente é preciso muita inspiração - , vesti qualquer coisa e saí, tinha ido resolver problemas financeiros, minha vida não estava em sua melhor fase, minha mulher havia me largado há dois meses, quase nesta mesma data troquei de emprego, não me dei muito bem no atual; fase de adaptação e expectativas frustradas; barba e cabelo por fazer - não que eu ligasse, mas eram nítidos sinais de desleixo - , era preciso mudar eu sabia, não sabia como.
Ela estava lá, linda, sorrindo pra mim, olhos que se escondiam através do escuro dos óculos. Olhos que eu sabia verdes e brilhantes, combinavam com sua pele branca.
“É, não tenho me cuidado o bastante” - voz baixa, numa certa vergonha.
“Não faça charme, você está bem, eu até gosto desse seu estilo”
“Não penso nessas coisas ultimamente, aliás, tenho pensado em pouca coisa”
“Não vai me convidar para um café, desde quando deixou de ficar gentil?” – Segurou na minha mão.
Não tive fala, apenas retribuí apertando ainda mais sua mão, e fomos. Pedi dois cafés, sentamos numas cadeiras vagas recostadas ao balcão. O tempo voou.
Esqueci-me das roupas, por instantes da minha tristeza – apenas de quando em quando lembrava do gosto do café – não sei se prestava atenção na conversa, mas lembro muito dos sorrisos, da pele branca, dos olhos verdes, da mão que me acariciava e das bobagens que eu pensava.
Rompi quando depois de uma eternidade conformada em 10 minutos ela me disse “Estou partindo para Nova Yorque, me faltam apenas algumas horas”.
Me sobrou um abraço, um beijo e uma partida. Ás vezes essas lembranças.
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