quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Trocados em sorrisos

Tínhamos apenas alguns trocados, nada mais. A fome batia, eu apanhava com minha indecisão, poucas eram as opções, mesmo assim me fazia perdido.

“Quanto custa esse pão-de-queijo?” – achei caro, mas não me agradava a outra opção.

“Me vê dois”, levei a ela.

Sentamos e comemos. Observando, curioso, desejava descobrir, ela comia, linda e desenvolta, com habilidade. Mulher mais graciosa não havia, pelo menos, não ali na lanchonete.

Tempos em que eu pensava em conquistar todas as mulheres do mundo, era nesses momentos em que ela me fazia irônico, confuso. Mulher de fala pouca me enlouquecia, eu nunca sabia o que ela queria, tentava decifrar encarando-a nos olhos, nada descobria, às vezes perguntava.

“Como você está?”

“Estou bem” – Sempre respondia ela, e calava, fazia-se silêncio – um silêncio que me torturava – mas eu gostava, e como gostava.

Bastava-me apenas um sorriso, eu paralisava, davam-me trecos. Lembra-me as boas melodias de Chico, Caetano e Cazuza. Meus ouvidos compõem a poesia enquanto deslumbro suas curvas e seus trejeitos, rejeito todos os comentários alheios, não os ouço, apenas a vejo, como nos tempos de moleque, aquelas musas instantâneas. Ela era uma mistura disso de hoje e daquilo de antes, ela era diferente, e às vezes me confunde o passado com o presente, perco-me no tempo.

“Não me fales do tempo” – Dizia-me em certa constante meu já ido avô.

Realmente não posso falar do tempo com propriedade, se esse tempo existente foi-me expirado. Vivo num tempo sem fim, sem guias, já não tenho espaço, não mais me localizo, foi-me tudo, esvaiu-se o horário, os sentidos.

Engraçado o é, quando tudo não tem mais importância, exceto sua presença de menina, irrequieta, valor de pérola.

Minhas nostalgias ultrapassam os limites, esses que transpasso toda vez que fico ao luar. Traços traiçoeiros me diria em outrora, agora me vens um sorriso, doce e leve.

Meu sorriso plantado com apenas uns trocados, bem gastos, numa admiração sem igual toda vez quando a vejo comer pães-de-queijo.

Nenhum comentário: