terça-feira, 29 de abril de 2008

SONHO REMETIDO

O campo verde media
[inconseqüente.
A razão de minha transcendência
Sob vales
Sob vários
Resumos em vias de acesso.

Como esquecer do pomar
(poucas vezes cultivado)
que funde-se à lembrança?
Rara do confisco
mar de todo o risco
De todas as ilhas de um sonho
[remetido

Perigoso o que o anseio traz
levemente como sopro em dois caminhos
difusos
diletantes
Que percorrem a razão de meus primeiros anos
[ sob os braços da arte.

Uma época áurea desbravada com pés descalços
Não soltava pipa tampouco jogava futebol
Chupava manga
Cigarra que canta
Ainda trovejante sob minha consciência
[em formação.

Época das primeiras descobertas de menino
Sentia um apelo senil em minhas pernas
[como se ali não houvesse
chegado
ás favas
minhas chagas
Infantis.


Corria ,me escondia de uma dona chamada responsabilidade.
Dever de casa era subir as árvores desnudo de carências
[adiadas
Poderia descobrir a tal causa da imortalidade
vários
passos
Como locomotiva em extrema unção
[ desdita.


O prêmio era satisfazer minha platéia
Com o vento puro da mais pura dormência
[de meus atos
tapioca
e passatempo
Naquele tempo o mundo se fechava e me satisfazia.

[Foi o que meu amigo André escreveu no Rio em 18 de Novembro de 2002.]

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Comentário

“Ainda sinto na boca o sabor do teu cigarro...”

A língua aidna degusta a fumaça... Talvez seja somente o que reste... A já incorporada fumaça.

Reflexão

Poesia. Nada faz por ti, às vezes pelos outros. Nem agrava. Nem amenisa. Espelha. O efeito do espelho. reFLEXO. Ou reFLUXO.

Recorte

[...

PENSAMENTO: As frases de pivada são um veículo para a expressão, criatividade e catarse daqueles que não dispõem de qualquer acesso aos meios de divulgação. A frase de privada é, na verdade, a mais legítima expressão subterrânea de um povo.

...]

[Notas de Manfredo Rangel, Repórter (A Respeito de Kramer) de Sérgio Sant'Anna (contos, 1973) ]

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Banheiro

Paredes amarelas e cadeiras pretas, a luz era baixa; Era uma lanchonete, a atendente magricela e baixinha atrás do balcão vestia um uniforme azul e estampava um sorriso mecânico. Pedi um copo de café com leite, ainda em pé fiquei a observar dois caras que revezavam suas vozes na leitura dramática de um parecido texto teatral; Faziam caras, bocas e vozes, um deles, ao contrário do outro usava bermuda, tinham cabelos longos de cor preta, eram brancos e fortes. Um com barba, o outro não. Mantinham-se sentados e bem postados.

Entre uma voz e outra, uma entonação e outra, uma pausa e outra, encontrava-me sentado num dos muitos lugares vagos encostado à parede. Cansava-me o dia mal dormido. Tirei da minha velha e companheira bolsa um livro (dividia espaço com papéis e embalagens de bombons, balas etc.).

Percebia meu sono (e o peso do dia) nos intervalos entre a leitura e a perda de consciência, não insistindo na leitura acompanhei um olhar fixa em minha direção. Construí uma indiferença, mas o olhar continuava fixo, me incomodava; a cada gole do meu café com leite eu desviava, mas não conseguia, insistia.

Uma jaqueta preta, óculos com forma arredondada, magro, cabelos grisalhos, um olhar que estava ali na mesa ao lado. Tenso, nervoso, olhos que piscavam a cada dois segundos, era inquieto. Levantou-se, ficou a admirar alguns quadros e gravuras que estavam dependuradas naquelas paredes amarelas, não tocou, somente olhou.

Curioso, percebi sua ausência, algo se foi, mas ficou a vontade de ir ao banheiro. Ao abrir a porta, ele voltou, encostado na parede, fixo, cruel, assassino. Reconstruí a indiferença, o mictório ao lado fazia questão de lembrar o cheiro forte de urina e aquele já velho e conhecido ruído, seu projetor era um gordo careca. Alguns assovios vinham de um dos biombos, alguém dava descarga e assoviava feliz, ele continuava lá, encostado à parede, calado, só observando, eu não conseguia me concentrar - abri o zíper, desajeitado mesmo e executei o velho processo, o careca também me olhava e do alto ele observava o meu processo. Em duas rápidas chacoalhadas me vi do lado de fora do banheiro, aliviado, sem medo e sem lavar as mãos.

domingo, 20 de abril de 2008

Revelação

Um rapaz chega a um restaurante, senta-se em uma das mesas que estão desocupadas, chama o garçom e lhe pede algo para beber, enquanto aguarda, entre um olhar e outro, repara que a mesa ao seu lado está ocupada por uma bela mulher. Observando disfarçadamente por alguns instantes, ele percebe que ela lhe sorri, como se estivesse convidando-o para sentar-se junto a ela, ele fica encabulado.

A bebida chega, e a mulher continua a sorrir, quando de súbito ele enche-se de coragem e vai até ela.

- Boa tarde! – Cumprimentado-a.
- Boa Tarde!
- Está calor hoje, não?
- É, está sim. Não quer se sentar?
- Quero. – Ele continua em pé.
- Então se sente.
- Claro. – Ele se senta.
- Você tem nome?
- Tenho.
- E não quer me dizer qual é?
- Qual é, o que?
- O seu nome.
- Claro, meu nome é... – Ele tira o documento de identidade de sua carteira.

Lendo a identidade, ele diz:

- Meu nome é Henrique de Tal. – Ele guarda o documento.
- Bonito nome, Henrique!
- Obrigado. Você gostaria de beber alguma coisa?
- Sim, gostaria.
- Então bebe o meu. – Ele coloca seu copo perto dela.

Encabulada, ela diz:

- Esqueci, estou de regime.
- Você é virgem não é?
- Virgem?
- As pessoas com o signo de virgem são pessoas como você.
- Como assim? Você nem sabe como eu sou, não me conhece.
- Só foi o que li no jornal.
- Você está enganado, meu signo é sagitário.
- Tinha certeza que você era de virgem. Mas o seu ascendente é em virgem, não?
- Não. É em capricórnio.
- Mas você tem tudo a ver com virgem.
- Porque?

Olhando para ela:

- Você gosta de se vestir bem?
- Gosto.
- Você é organizada?
- Sou.
- Alguém errou o dia do seu nascimento, os astros não se enganam, você é de virgem.
- Continuo sem entender!
- Você tem tudo o que uma virginiana tem como característica?
- E o que uma virginiana tem como característica?
- Tudo o que você disse.
- Mas eu não disse nada. Só respondi que sou organizada e que gosto de me vestir bem.
- Então é isso.
- Isso o que?
- Isso. Somente isso.
- Olha, creio que não estamos nos entendendo.
- Esse é um começo!
- Que começo?
- O começo de um relacionamento?
- Relacionamento?
- Duas pessoas quando se conhecem tem um relacionamento. Entendeu?
- Entendi.
- Mas tem um problema?
- Que problema?
- Para haver um relacionamento tenho que saber o seu nome.
- Meu nome é Clara.
- Claro.
- Não, é Clara.
- Agora sim temos um relacionamento.
- Que relacionamento?
- Clara eu também sou virgem!
- Entendi, o seu horóscopo diz para você se relacionar com pessoas do seu signo?
- Exatamente. Você é perfeita!
- Perfeita?
- Tudo está como escrito no jornal. Hoje quando li o horóscopo de manhã, ele dizia que eu iria encontrar alguém.
- Claro que você iria encontrar alguém, afinal está no horóscopo – Ironicamente.
- O mundo tem tantos segredos, mas os astros nos revelam todos. Imagine se não existissem os astros?
- Imagine.

Olhando para o relógio:

- Clara, tenho que ir. Depois te ligo.
- Como me ligará, se não te passei o meu telefone?

Saindo ele responde:

- Os astros me revelaram.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Recorte

[ ...
Não há nada de condenável na cultura de massa, ela cumpre o seu papel em um país democrático. O fato é que, evidentemente, quanto menor o lugar, menores as minorias. No Nordeste da terra do samba e do sol, o Jazz sempre será a deliciosa minoria.
... ]

recorte do jazzmanmp3.blogspot.com

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Releitura

Minhas coisas

Tem muitas coisas num mundo infinito que não compreendemos, sinto não compreender o tempo. Ele me passa, pouco percebo, seus efeitos invisíveis acontecem. Eu estagnado, não compreendo, nem reajo, gostaria de ser parte dos seus feitos, parte do todo, um todo que não compreendo.

Olho as horas, elas se movem, não percebo, elas vão embora, se transformam em dia, em noite, em coisas que não entendo, elas se vão. Eu fico. Fico olhando o tempo passar, e as vezes tenho a impressão que ele é quem me olha, quem me observa. Olhos nos olhos do tempo.

Tenho a impressão que flutuo, colado no solo meus pés permanecem, eu flutuo com o tempo que não sinto. É engraçado como consigo descrever, não me faz sentido.

Não o vês? Eu também não, mas é como se eu pudesse.
Olhos perdidos no mar.