quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Puta da Vida

- Eu to puta da vida.
- Puta da vida com o que?
- Com a vida, comigo, com Deus!
- Que Deus tem a ver com isso?
- Esquece.
- Ah não, explica aí, o que aconteceu?
- Não aconteceu nada.
- Como não? Claro que aconteceu, olha como você tá.
- Um vaca tava dando bola pro Rodrigo, e ele lá rindo como uma hiena.
- E o que você fez?
- Não fiz nada.
- Você falou com ele?
- Não, só fiquei observando.
- Mas porque você não foi falar com ele?
- Não tive coragem.
- Mas eles só estavam conversando?
- Só.
- Então, qual é o problema?
- É que eu nunca consegui fazer ele rir daquele jeito.

terça-feira, 22 de novembro de 2005

A vida como ela é. Através de uma caixa.

Num quarto escuro, salvo apenas por uma luz ao fundo, gerada por uma caixa falante, a televisão. Na sua frente alguém, compenetrado, encolhido, trêmulo.

A caixa exibe imagens de homens com rostos pintados, verde musgo, todos armados, feições não muito amigáveis, um só objetivo: derrotar o inimigo; um só pensamento: quando tudo terminar, voltar para casa; é a guerra, um por todos e todos por um.

Aviões e helicópteros, bailarinos do céu, bombardeando alvos, matando inocentes, fazendo manobras arriscadas, piruetas, um verdadeiro espetáculo vermelho, onde os aplausos são tiros de metralhadoras, fuzis e canhões.

A música tem um som metálico com poucas variações de compasso, impressionante. A atuação vocal fica por conta de um coral com gritos de ordem e socorro.

A natureza também colabora com o espetáculo, apresentando um cenário de tempestades tenebrosas, ventos velozes, ondas imensas, que destroem tudo o que encontram pela frente.

Um espetáculo que tem como protagonista à miséria; como coadjuvantes a fome e a violência; e como vilões, injustiça, egoísmo e ódio.

Espetáculo digno de um Oscar, prêmio concedido aos melhores filmes, analisados a partir de quesitos como: criatividade, linguagem, atores, roteiro, direção e sucesso de público. LUCRO.

O filme da vida real é o filme mais vendido do mundo, onde todos nós somos figurantes, vermelhos.

Alguém

Por que será que todos falam de alguém
Alguém que não conheço
Não sei se é alto, magro, baixo, gordo.
O que sei é que é alguém

Alguém que não sei quem é
Alguém precisa de um nome
Você não acha?

Não penso em nome nenhum
Não penso em ninguém
Talvez seja porque estou pensando em alguém
Quem?

Os carros passam pela rua
Alguém, que não sei quem passa pela rua.
Não sei se é você
Não sei se sou eu
Alguém está ficando louco
Louco por quem?

Não sei... Alguém.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Sentir

SENTIR OLHAR
SENTIR SENTIDO
SENTIR SOLTAR
SENTIR PRENDER
SENTIR FALAR
SENTIR QUERER
SENTIR SOFRER
SENTIR CRESCER
SENTIR NASCER
SENTIR VIVER
SENTIR
MORRER

Obrigado.

Quem é você?
Qual o seu nome?
Você tem nome?
Você vem sempre aqui?
O que você acha de mim?
Não acha nada?
Você tem algum sonho?
Você tá com sede?
Você tá com fome?
Você tem sobrenome?
Você parece com alguém?
Eu te conheço?
De onde?
Você não sabe?
Como não sabe?
O que é isso?
Que respostas?
Existem respostas?
Quais perguntas?
Você tá falando comigo?
Tem certeza?
Você tem algum problema?
Você gosta de alguém?
Você tem alguém?
Ah, e horas você tem?

Obrigado.

sábado, 19 de novembro de 2005

Quando as palavras acabam

Quando as palavras acabam
Eu fico mudo
Falando por dentro e calado por fora

Quando as palavras acabam
Eu somente consigo ouvir
Meus pensamentos que não querem calar
Ouço o som do meu coração a bater
Sinto o grito do silêncio que se estende
Por todo meu corpo

Sinto minha loucura me consumindo
Ouço a voz do silêncio que não se cala
Que chama a solidão para perto

Aos poucos sinto dor
Aos poucos sinto prazer
Aos poucos não sinto nada

Meu corpo não mais responde os comandos de minha mente
Estou preso em cordas que falam
Estou sozinho num paraíso falante
Lágrimas descem de meus olhos
Risadas quebram o vazio
Estilhaços de uma vida no chão
Uma vida feita na loucura e na razão

Brincadeira

PREto, RosA, AZUL
GIZ DE CERA
BRINCADEIRA
VERMELHO, AMARELO, GOTEIRA

ESPANTALHO
PULA CORDA, PIPA, PEÃO
PEGA qUE nÃO esconde
Esconde QUe NÃo PEGA

BALANÇA
GIRA-GIRA
ESCORREGADOR
BEBEDOURO

SOL CINZENTO
NUVEM ROSA
MAR AMARELO
TEMPESTADE ROXA

Navalhas

PALAVRAS SÃO NAVALHAS
CORTAM, SANGRAM, FEREM
SEM NEXOS SÃO COMPLEXAS
NÃO FALA
NÃO OUVE
NÃO VÊ
NÃO QUER

PALAVRA É PALAVRAS
PALAVRA É PALAVRAS
PALAVRA É PALAVRAS
PALAVRÕES

DEDO, QUEIXO, PESCOÇO
BRAÇO, CABEÇA, BEIÇO
OLHO, UNHA, DENTE
PENIS, VAGINA, QUENTE

PALAVRAS SÃO PALAVRA
PALAVRAS SÃO PALAVRA
PALAVRAS SÃO PALAVRA
PALAVRÕES

PÉ, UMBIGO, COTOVELO,
PEITO, OUVIDO, ORELHA,
COSTELA, FÍGADO, RIM
CABELO, CASPA, HOMEM

Rádio de Pilha

Rádio de pilha
Jogado ao canto do quarto
Revistas no chão
Algo não está normal

Lápis, borracha e caneta
Papel rabiscado
Apaguem a luz
Aqui tudo é banal

Imagens em movimento
Barulho de buzina
Lembranças do passado
Tudo é infernal

Correm os segundos
Voam as aves
Nadam os peixes
Vivem os homens

Algo não está igual
Nada é diferente
Tudo é normal

sábado, 12 de novembro de 2005

Plus.

Cada vez mais me descubro seletivo, maduro e charmoso.

terça-feira, 1 de novembro de 2005

Foi quando acabou que eu entendi.

E não é que tem jeito. Tem. Olha só a cena. Semáforo fechado, aquele da galeria 2001 na Paulista, uns 50 anos, feminino, acompanhado desse cara aqui, meio melancôlico por esses dias, ela estendo os braços e grita - EU AMO A VIDA. É, ela ama mesmo. E esse grito foi pra mim. Eu não contive o sorriso.

Acho que eu tava na Pamplona [rua] querendo chegar ao ponto de ônibus nas Clínicas, embolando devaneios com passos. Ela - preciso de companhia. Pensei - Logo a minha, pq alguém assim desconhecido precisaria da minha companhia, será que ela leu meus pensamentos. Não. Não era possível. Mas era exatamente nisso que eu estava pensando. Em companhia. Claro - foi o que eu disse.

Sorriu e continuamos a caminhar. Falamos coisas aleatórias. Mas falamos de amar. De viver feliz. Foi logo que eu percebi. Ela - O teatro acabou. É um teatro barato. Chega de sentimentalismos. Ela está na platéia, mas não é pra ver o teatro. Paralisei.

Ela sorriu. Eu procurava resposta pras perguntas. Me surge ela. Fechei as cortinas. Apaguei as luzes de ribalta. A trilha continuou por parte das ruas de São Paulo. Al. Santos.

Sei que aquele grito foi pra mim. Nos despedimos com olhares sinceros. Eu agredecido. Fui incapaz de gritar em alto tom que amo a vida em plena Av. Paulista. Mas nem era preciso. Alguém já o fez por mim. Eu só pude pagá-la em sorriso.

Agora entendi porque nesse momento ela [a moça da platéia] está me aplaudindo.