“Tempero é o segredo” – repetia sempre entre os amigos, e todos riam.
No último jantar, preparou um coelho, escolheu o vinho, a trilha e chamou os próximos. Todos comemoraram seus sessenta e três anos. Risonho e satisfeito, brindou – e todos brindaram com ele.
“Viva o coelho” disse levantando a taça.
“Homenagem merecida, o que seria de nós se os coelhos não existissem?” comentou uma amiga de infância.
“Que o tempo não tire seu humor, por mais mórbido que ele pareça”
Todos triscaram os cristais e num gole comemoraram o coelho e o anos de nosso amigo.
Alguém lembrou da infância. Naquele tempo que era chamado coelho - “Grande Coelho”, como dizia o Oswaldo –, um perna-de-pau de primeira nas peladas eternas que eram disputadas num capinho de terra lá na Vila Carioca.
O campo era pequeno, traves de madeira cortada das árvores (feita pelos próprios meninos, inclusive, ele, o coelho) e o mato bem aparado. Palco de grandes jogos entre o time da vila contra os arquirivais meninos da rua-de-baixo. Coelho fora um grande zagueiro – mesmo sem grandes atrativos futebolísticos – ele metia medo e assim era sempre escalado, parte da tática dos meninos da vila.
Ao levantarem as taças (de vinho), muitos lembraram o histórico momento em que o Grande Coelho driblou de modo desajeitado os dois zagueiros e chutou à gol – era a revanche dos meninos da vila. Fora aclamado por um bom tempo, ganhou o respeito de todos.
Tanto respeito, que descobriu a cozinha, logo depois a arte de ser pai de uma meninha e um marido querido. Naquele gole, também engolia um pouco das saudades que sentia da filha. Clara, uma linda jovem de vinte e dois anos, recém-formada em fisioterapia e longe do pai num curso de aperfeiçoamento na europa.
Sueli não era mais sua esposa, mas continuava sua fã. Ele sabia disso, e por ela tinha um imenso carinho, sempre ligava pra ela às quartas, perguntava sobre a vida, falavam sobre a filha, eram bons amigos.
O coelho sempre foi grande, como naquele último gole.
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