A água despencava do céu, mas não era triste. Era alegre. Acordei cedo, com o barulho bom da chuva – esse que sempre faz adormecer, me acordou -, disposto levantei, fui ao banheiro, escovei os dentes.
De tênis, shorts e relógio de pulso o dia acabava de nascer. O ponto de vista é sempre nosso, o mundo sempre começa quando a nossa consciência desperta. Uns pingos cá outros lá, e a lagoa, a imensa lagoa abraçava as gotas d’água, como boa mãe às recebia com prazer.
Era uma lagoa imensa, tão acostumada com o temperamento do tempo e a companhia das pedras. Nas suas encostas uma areia rala imprimia uma cor pele, que metro depois dava lugar a uma grama bem aparada e confortável – agora era o verde o dominante.
“As coisas do lado de lá sempre parecem mais bonitas” pensava eu enquanto corria. Contava no cronômetro dez minutos de caminhada. As gotas uma a uma foram cessando, não demorou muito o sol surgiu. Outros minutos depois estava eu esgotado de uma não costumeira corrida.
A dor era pouca, mas presente. Correr tem disso. Agora entendo bem os corredores da São Silvestre – acho que na verdade não entendo – eles são fortes, ágeis e resistentes. E aja resistência, corri vinte minutos – não mais que uns quatro, cinco quilômetros. Eles correm vinte, talvez por isso é tão gloriosa uma vitória na São Silvestre, uma das mais memoradas maratonas do mundo.
Foi um dia feliz de sol e preguiça. Almocei cedo e li muitas páginas de um bom livro: “Fragmentos do Éden” de Francisco Viana. Foi possível descobrir o paraíso. “O paraíso é sempre o paraíso perdido”.
Deitado na grama, o verde dominante, num fim de tarde observando as pessoas que caminhavam, outras que corriam. Eram bonitas suas peles brancas e avermelhadas pelo sol.
Fiquei recostado a uma arvore, adormeci e sonhei. Eu estava do lado de lá, e no sonho eu disse: “Aqui desse lado as coisas são realmente mais bonitas”.