terça-feira, 29 de maio de 2007

Churrasco.

Churrasco. Algumas doses e outras trilhas. As doses que geram sorrisos, piadas e altos tons. Na brasa, uns passos aqui e outros ali, dançam os grelhados e a garota de rosto conhecido. Os amigos dançam, informalmente. Eu vou me divertindo, falando de política, filosofia e futebol. Mostro domínio no futebol, mas erro o pênalti na filosofia e reclamo do juiz na política, tudo normal num churrasco entre amigos.

Nessas reuniões os ingredientes caem bem, seja o pagode, seja a amiga da amiga do amigo, seja a cerveja quente, seja o que passa na TV. Não posso muito falar do que passa na TV, melhor, posso falar muito do que passa na TV nesses encontros, o que eu não posso é reclamar, sempre colocam um filme do meu agrado. Filmes bacanas para amantes de cinema, ou ensaítas desse amor.

Quando não se chega cedo, um pouco de inveja bate, não existe meio termo, ou é cedo ou é tarde. Cedo, você é o inaugurador, aquele que se prepara para receber os outros, aquele que tem os melhores sorrisos e a melhor coreografia do começo de noite. Tarde, você é o dono daquele sentimento de algo que se perdeu, e agora precisa recuperar o tempo. Engraçado, como todos fazem questão de te mostrar com aquelas expressões felizes o quanto tempo você perdeu. “Do próximo eu chego mais cedo” é sempre o pensamento seqüente.

Então a festa rola, todos rolam e a carnes assam. Uma beleza, até parece final de campeonato Brasileiro. Os críticos, a torcida à favor, a torcida que é contra, os que não entendem nada de futebol, enfim... todos comemorando algo.

Eu gostei da cachaça, talvez mais da garrafa. Bela garrafa. Bebi uns quatro copos. Virados. Virados. Os oficiais degustadores da bebida citada que não me ouçam e não me rotulem. Rótulos cabem bem às bebidas, não as pessoas.

Todos logo se vão, e os resíduos ficam. Inclusive eu. Ficam as memórias de um memorável churrasco, e ficam também os fatos de reflexão. Esses que só serão fatos de reflexão no outro dia. No dia da festa, tudo é apenas resíduo (mas nem tudo é reciclável, diga-se de passagem).

Cozido.

Cozinhar sempre foi uma paixão. Ele cozinhava bem. Improvisava risotos, cozidos e saladas como ninguém. Era mestre em carnes e fazia questão dos temperos.

“Tempero é o segredo” – repetia sempre entre os amigos, e todos riam.

No último jantar, preparou um coelho, escolheu o vinho, a trilha e chamou os próximos. Todos comemoraram seus sessenta e três anos. Risonho e satisfeito, brindou – e todos brindaram com ele.

“Viva o coelho” disse levantando a taça.

“Homenagem merecida, o que seria de nós se os coelhos não existissem?” comentou uma amiga de infância.

“Que o tempo não tire seu humor, por mais mórbido que ele pareça”

Todos triscaram os cristais e num gole comemoraram o coelho e o anos de nosso amigo.

Alguém lembrou da infância. Naquele tempo que era chamado coelho - “Grande Coelho”, como dizia o Oswaldo –, um perna-de-pau de primeira nas peladas eternas que eram disputadas num capinho de terra lá na Vila Carioca.

O campo era pequeno, traves de madeira cortada das árvores (feita pelos próprios meninos, inclusive, ele, o coelho) e o mato bem aparado. Palco de grandes jogos entre o time da vila contra os arquirivais meninos da rua-de-baixo. Coelho fora um grande zagueiro – mesmo sem grandes atrativos futebolísticos – ele metia medo e assim era sempre escalado, parte da tática dos meninos da vila.

Ao levantarem as taças (de vinho), muitos lembraram o histórico momento em que o Grande Coelho driblou de modo desajeitado os dois zagueiros e chutou à gol – era a revanche dos meninos da vila. Fora aclamado por um bom tempo, ganhou o respeito de todos.

Tanto respeito, que descobriu a cozinha, logo depois a arte de ser pai de uma meninha e um marido querido. Naquele gole, também engolia um pouco das saudades que sentia da filha. Clara, uma linda jovem de vinte e dois anos, recém-formada em fisioterapia e longe do pai num curso de aperfeiçoamento na europa.

Sueli não era mais sua esposa, mas continuava sua fã. Ele sabia disso, e por ela tinha um imenso carinho, sempre ligava pra ela às quartas, perguntava sobre a vida, falavam sobre a filha, eram bons amigos.

O coelho sempre foi grande, como naquele último gole.